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Desde os tempos de colégio que eu não me interessava pelas suas matérias de ensino, pois elas não faziam eco na minha compreensão. Ora, eu não conseguia compreender o significado real de nenhuma delas, e mesmo nas tentativas que fiz para forçar as suas apreensões em minha mente, através das memorizações, não consegui lograr qualquer êxito, porque era totalmente desprovido de memória. Um texto qualquer de poucas linhas que eu lia, após apenas dois minutos já se apagavam da minha memória, como que por encanto, como se fosse um passe de mágica. Desta maneira, eu não poderia ter adquirido jamais o gosto pelos estudos, por isso eu estudava apenas o estritamente necessário, que era muito pouco, ou mesmo quase nada, em conformidade com as necessidades estudantis. Por isso eu era considerado um aluno relapso, vagabundo, preguiçoso, sem pendor para os estudos, destacando-me apenas nos meios esportivos, pois que já no terceiro ano ginasial, ainda muito adolescente, eu já era o goleiro da seleção do Colégio Cearense, dos irmãos maristas, em Fortaleza, assim como também integrava a sua seleção de voleibol.

Mas, de qualquer maneira, eu precisava me defender da vida, tendo que cursar todo o colegial e também uma faculdade, pois tinha a forte intenção de constituir família, e caso não conseguisse esse meu objetivo não poderia sustentar a contento aos meus, pois que não tinha qualquer pendor para o trabalho braçal, que além de tudo pouco remunerava. Assim, eu teria que passar em todas as matérias de alguma maneira, fosse como fosse, a fim de alcançar ao meu objetivo. Então geralmente eu “pescava” ou “colava” dos colegas as respostas das questões nas provas, quando não sabia a respeito delas, tornando-me um verdadeiro especialista no assunto. Tomado pelo espírito moleque do cearense, eu sempre “pescava” na maior das molecagens, que para mim era um grande divertimento, como certa vez em uma prova considerada como sendo muito difícil, quando todos os meus colegas estavam concentrados na resolução das questões, sem que eu não estivesse nem aí para elas, passei apenas a observar os seus semblantes, achando tudo muito divertido, então, de repente, na ocasião em que o professor se afastou um pouco, eu falei para todos, como que em imitação aos pedintes de rua: ‒ Uma “pesquinha” pelo amor de Deus! Todos olharam para mim e caíram na gargalhada, desanuviando a tensão do ambiente, o professor olhou para todos, mas nada conseguiu entender, mas de qualquer eu conseguiu me sair bem na prova, tal como sendo o pedinte mais moleque entre todos os pedintes.

No entanto, após o término do colegial, eu teria que me submeter às provas do vestibular, e estas eram bem mais difíceis do que as provas colegiais, e lá eu não poderia “pescar”, pois todos eram concorrentes uns dos outros, já que a quantidade de alunos era bastante desproporcional ao número de vagas na faculdade. No 3° ano colegial, que era denominado de “cursinho”, eu passei seis meses levando a mesma vida de sempre. Contudo, após o término do 1° semestre, eu senti em mim a imensa responsabilidade de cursar uma faculdade, caso eu quisesse realmente constituir família e proporcionar um conforto relativo aos meus familiares que iriam depender diretamente de mim. Então eu resolvi sair do Colégio Cearense e me matricular em outro colégio, fazendo um curso intensivo das matérias de todas as disciplinas que deveriam cair no vestibular. Aí sim, eu estudei para valer, passando a dormir apenas três horas por dia. Consegui passar no vestibular para Administração de Empresas, na Escola de Administração do Estado do Ceará, que na época era um dos cursos mais concorridos, pois que o seu curso era considerado como sendo de primeira qualidade, tendo ficado mais ou menos na média do número daqueles que conseguiram passar, tendo me saído abaixo da média nas disciplinas que exigiam memória, como História, Geografia e Organização Social e Política Brasileira – OSPB, assim como também em Química, no resto das disciplinas em consegui obter notas elevadas.

Após eu haver ingressado na faculdade, a Universidade Federal do Ceará realizou uma prova seletiva para um curso de computação extensiva a todos os alunos das demais faculdades. Interessei-me pelo curso e resolvi me submeter à prova de seleção, que se limitou apenas a um extenso teste de QI – Quociente de Inteligência, tendo logrado êxito, mas não foi divulgada as colocações dos candidatos. E o mais interessante de tudo isso aconteceu no primeiro dia de aula, logo ao adentrar no recinto do auditório, pois observei vários antigos colegas do Colégio Cearense que eram tidos como “cobras”, alunos considerados muito acima da média, e, logo ao passar por eles, um deles, admirado ao me ver entre eles, exclamou em voz alta para os demais: “‒ Rapaz, o Marcos Serra passou na prova!”. Eu nada respondi, mas pensei cá comigo: meu amigo, a prova era de inteligência, e não para provar memória. Assisti apenas a uma ou duas aulas, desinteressando-me completamente pelo assunto, pelo que logo abandonei o curso, não me interessava de modo algum aprender aquilo.

É certo que a doutrina do Racionalismo Cristão preparou a minha vinda a este mundo, como comprova o próprio Luiz de Mattos, em sua obra Pela Verdade, as páginas 72 e 73, quando ele assim se expressa:

“Em nossa nota II, ficou bem claro o nosso fim, o papel da imprensa livre, que sabe o que quer.

Nessa nota, citamos a opinião do valente Júlio Ribeiro, verdadeiro e independente como ninguém o foi mais, sobre o homem público, e assim sobre qualquer instrumento humano, ocupando cargos públicos:

– ‘O homem público, na qualidade de homem público, não tem individualidade, é um órgão social!

Se a função que lhe corresponde saiu imperfeita, é que ele, como órgão, é defeituoso, e cada cidadão está no direito de lhe apontar o defeito e vícios, e de lhe citar o nome’.

Nessa mesma nota, exaramos, do mesmo autor, o seguinte aviso:

‘Repetir textos não é mostrar ciência, é provar memória; e é tempo de se reconhecer que assim como há bacharéis sábios, há também sábios não bacharéis e indivíduos que, na frase de Michelet, são doutores aos quinze anos, e outros asnos toda a sua vida’.