Essa história de que os credos e as suas seitas narram acerca da salvação, que os sacerdotes aproveitam para inocular nas mentes das pessoas incautas e pouco raciocinadoras, assim como se inocula um veneno ou um anestésico em uma vítima qualquer, tornando-as vulneráveis e afeitas aos seus desejos inconfessáveis, é uma das balelas do mundo mais fáceis de serem contestadas, desde que o julgador não seja tendencioso e tenha o raciocínio um pouco desenvolvido para que através dele possa concluir a respeito da questão posta para si.
Para tanto, posso partir logo do princípio de que o bem e o mal existem, algo que ninguém põe em dúvida, por ser incontestável, sendo antagônicos um ao outro.
Mas ardilosamente os sacerdotes associam o bem ao cumprimento dos dez mandamentos das leis do deus bíblico, à fé credulária incondicional e irracional nesse deus de araque, tendo todos que professam dessa fé credulária que adorá-lo e temê-lo, ao mesmo tempo tendo que amá-lo acima de todas as coisas, como se alguém pudesse adorar, temer e amar ao mesmo tempo, cumprindo com alguns rituais próprios das crenças dessa fé credulária que abraçou, pagando dízimos, ofertas, contribuições, mensalidades e tudo o mais do gênero que a classe sacerdotal inventa para enriquecer, orando e rezando, sem saber o que tais palavras significam, na realidade, jejuando, fazendo promessas e penitências, ajoelhando-se e curvando a coluna vertebral em peditórios, e todas as demais basbaquices que nesse contexto for necessário à salvação da sua alma; sendo que os que professam dessa chacota sacerdotal serão os salvos.
Enquanto que o mal é o contrário de tudo isso, sendo incluídos no seu contexto os seres humanos que não possuem a fé credulária, os incrédulos, os hereges, que por isso são apontados como sendo cruéis, desumanos, impiedosos, recebendo a denominação de ímpios: sendo que os que não professam da chacota sacerdotal serão os condenados.
Assim, no final dos tempos, haverá o julgamento final, com os bons, os que professam da chacota sacerdotal, indo para o céu, e os maus, os que não professam da chacota sacerdotal, sendo exterminados pelo deus bíblico, ou, então, indo para o inferno, queimando para sempre no fogo eterno. No entanto, o resultado disso tudo é que o bem e o mal continuam a existir, mas os seres humanos tidos como ímpios não mais existirão. Em sendo assim, não se pode saber quem é mais estúpido e ignorante, se a classe sacerdotal que inventou toda essa baboseira, ou se o deus bíblico, que além de estúpido e ignorante se revela também um perverso genocida, já que irá condenar eternamente aos seres humanos tidos como ímpios, exterminando-os ou os lançando para serem queimados no fogo.
Ora, com a utilização de apenas um pouco de raciocínio, não seria muito mais recomendável antes acabar com o mal do que com os seres humanos tidos como ímpios, para que então todos pudessem ser salvos? Afinal, quem é mais importante, os seres humanos ou o mal? No caso de serem os seres humanos, que é o óbvio, é o mal quem deve ser extinto, e não os seres humanos, pelo fato destes serem mais importantes que o mal. Assim, esse caso da salvação se assemelha ao caso do homem que pegou uma doença, cuja solução encontrada no tratamento foi matar o homem para não conservar a doença, ao invés de matar a doença para conservar o homem.
Porém, neste caso da salvação, sim, a solução poderia até ser até acabar como o mal, mas a sabedoria nos recomenda que o deixemos existir, pois que ele faz parte da imperfeição, sendo necessário que todos os seres ingressem no âmbito da imperfeição, pratiquem todos os tipos de males, evoluam em seu âmbito, e passem a se tornar cada vez menos imperfeitos, passando a praticar o bem, até que evoluam o suficiente para que possam abandoná-la por completo, quando então conseguem ingressar no âmbito da perfeição.
Em decorrência, o bem e o mal têm conotações diferentes das que são transmitidas pela classe sacerdotal, que são completamente alheias ao deus bíblico e às determinações oriundas das suas crenças, mas aí já é outro assunto.