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O Racionalismo Cristão ainda se encontra posto como sendo a doutrina da verdade, sendo acertado que nele estão inseridos muitos princípios saperológicos, uma vez que os veritólogos têm também que desenvolver, sobremaneira, os seus intelectos. Os seus militantes procuram seguir fielmente aos seus ensinamentos, no que estão absolutamente corretos, pelo menos por enquanto, pois eles traduzem uma conduta atrelada à mais alta moral de todos os tempos. Um desses ensinamentos diz o seguinte: os seres humanos têm que levar as duas vidas em separado, de um lado a vida material, do outro a vida espiritual.

Caso eu tivesse levado esse ensinamento ao pé da letra, ainda hoje estaria empacado com a sua explanação. É certo que grande parte da minha vida eu dediquei exclusivamente ao lado material, lutando pelo sustento da minha família, ao mesmo tempo realizando as minhas experiências científicas, mas não com tanta profundidade. Depois, passei um pequeno período trabalhando e frequentando a doutrina do Racionalismo Cristão à noite, levando, realmente, as duas vidas em separado. Posteriormente, debandei pelo mundo afora, enchafurdado na sua lama, realizando as minhas experiências científicas com mais profundidade. Após algum tempo, quando resolvi realmente explanar a doutrina da verdade, dediquei-me totalmente a ela.

Hoje em dia, eu vivo com uma pequena remuneração retirada da pensão da minha mãe, mas trabalho como corretor de imóveis, dando plantão nos stands de vendas. Quando estou em meus plantões, eu fico escrevendo as minhas obras, sem dar a mínima importância se estou vendendo ou não, já que fico totalmente concentrado naquilo que estou escrevendo.

Por ocasião da chegada de algum cliente em potencial, ao contrário dos meus colegas de trabalho, eu não fico lá muito satisfeito, pois parece que eles adivinham os momentos exatos em que estou no auge de um raciocínio, mas não demonstro qualquer impaciência, atendendo muito bem a todos, com o máximo de cortesia e gentileza, mas, infelizmente, geralmente os clientes nunca compram. Eles me atrapalham sim, mas se ao menos resolvessem comprar, eu ficaria até satisfeito, pois ajudariam muito nas minhas finanças, aliás, minhas não, da minha esposa, pois que eu não tenho finanças, e nem mais quero ter, a não ser para as minhas ações de liberalidade e de magnanimidade que ainda pretendo realizar nesta vida, mas apenas os recursos necessários para a sobrevivência da minha família, e, logicamente da minha, modesta, mas sem passar por maiores necessidades. 

Por isso, ao invés de lamentar as únicas três vendas que consegui efetivar ao longo do meu trabalho como corretor, eu até rio da situação, quando fico a me indagar: por que será que todos os meus colegas vendem mais do que eu? Ora, eles vivem disso, então que vendam mais do que eu, pois todo o foco das suas vidas se encontra em suas profissões. Além do mais, eu sou plenamente ciente de que não sou um vendedor desqualificado. Então, que assim seja, porque assim tem que ser, e assim é, como não poderia deixar de ser.

Assim, quer esteja no trabalho, quer esteja em casa, todo o meu tempo eu dedico à investigação e a pesquisa, estudando com afinco, e a escrever as minhas obras espiritualistas. Em sendo assim, eu não tenho mais vida material, apenas a espiritual, considerando apenas a esta. Caso alguém conheça verdadeiramente a vida de Jesus, o Cristo, ele nunca se dedicou à vida material, embora digam que ele tenha sido carpinteiro, mas apenas à vida espiritual, com toda a elevação da sua grandiosa alma.

No entanto, isso não implica em dizer que os demais seres humanos devam levar apenas a vida espiritual, tendo todos que se dedicar também à vida material.

Mas o engraçado é que a classe sacerdotal considera que leva uma vida espiritualizada, quando, na realidade, ela é toda materialista, pois que não possui a mínima noção do que seja a espiritualidade. E como ela não trabalha, como nunca trabalhou, sendo remunerada através do estelionato, todos os sacerdotes formam um verdadeiro bando de vagabundos.