Quando iniciei a escrever os meus rascunhos e pensamentos ℗ 0095, em relação ao medo, estava um tanto incorporado do espírito da molecagem cearense, pois a minha intenção inicial era fazer chacota com o medo, por puro diletantismo. No entanto, à medida que ia escrevendo, o assunto tomava outro rumo, então eu me desviei totalmente do pensamento original. De qualquer maneira, eu tinha mesmo o intuito de revelar que não tinha a mínima noção do que fosse o medo. Mas como a ideia da molecagem agora foi para o espaço, e como sou desprovido de memória, só me resta narrar três episódios em relação ao medo.
Quando das minhas experiências científicas com drogas ilícitas, nas ocasiões em que estava acompanhado com os companheiros de infortúnio, eu ficava deveras intrigado com duas das suas manifestações relativas a essas ocasiões. Então eu vou narrar logo a essas duas manifestações de medo, e depois eu narro os episódios da segunda e da terceira. Que são os seguintes:
Um dessas duas manifestações de medo ocorria quando nos encontrávamos nas casas ou nos apartamentos em que eles moravam, que se refere ao fato deles ficarem olhando constantemente pelas frestas das janelas e das portas, com os olhos bastante arregalados, afirmando que tinham pessoas que estavam a nos observar às escondidas. Realmente eu também tinha essa mesma impressão, mas não ligava, nem um pouco, apenas me limitava a ficar sorrindo e a falar para eles que não tinha ninguém nos espreitando. Às vezes, para acalmá-los, eu abria as janelas para olhar, ou então abria a porta e saía para mostrar que não havia ninguém, quando então eles ficavam apavorados, provocando ainda mais o meu riso.
Na realidade, todos nós estávamos na presença maciça dos espíritos obsessores integrantes do astral inferior, que estavam nos intuindo para que pudéssemos consumir cada vez mais drogas, e assim pudessem também sentir os seus efeitos, por indução. Mas como eu raciocinava em termos de seres humanos, sabia que não tinha ninguém nos espiando. E caso tivesse, teria fatalmente que se defrontar comigo. No entanto, caso eu tivesse atentado para a presença dos espíritos obsessores quedados no astral inferior, nessas ocasiões, ignorante como eu era acerca da espiritualidade, teria me divertido com eles, falando palavras mordazes e ironizando as suas condições de desencarnados. Todos, então, iriam pensar que realmente eu estava louco, ou então que eram os efeitos da droga, quando, na realidade, não era nem um, nem outro.
Como complemento, em relação aos conflitos decorrentes da minha separação com a minha primeira esposa, quando estávamos sozinhos em casa, com o ambiente deveras trevoso, mais do que carregado, eu tive também as mesmas sensações dos meus companheiros de infortúnio. Realmente, para mim, em diversos locais da residência, havia a presença de pessoas, pois eu também ouvia barulhos sutis vindos de toda a parte. Então eu passava a correr de um lado para o outro, com a intenção de flagrar os intrusos e dar início a uma luta corporal, fosse ela mortal ou não, para mim pouco importava. De repente, não mais que de repente, eu ouvia risadas. Mesmo estando completamente drogado, raciocinei que a busca incessante pelos intrusos estava ficando estranha, pois ninguém conseguiria se esconder daquela maneira por bom tempo, ainda mais sendo várias pessoas, e com aquelas risadinhas relativamente próximas de mim, jamais a situação poderia se referir a simples seres humanos. Então eu resolvi tomar uma decisão. Ignorei totalmente a presença da separanda, passei a olhar para um lado e para o outro, mas sem fixar o olhar em que quer que fosse, tal como agem os cegos, e passei a falar asperamente, primeiramente exclamando o seguinte:
─ Vocês pensam que vão me enganar por muito tempo, cambada de sem-vergonhas!
Logo a seguir a essa minha exclamação, eu ouvi nitidamente uma exclamação de espanto por parte deles:
─ Oooohhhhh!
Então, sem dar a mínima importância se tal exclamação era realmente de espanto, ou se continha um sentido artimanhoso, assim para provocar a minha própria admiração, por mim mesmo, pela minha própria capacidade em havê-los detectado, ou mesmo se era por pura gozação, podendo ser qualquer uma delas, ou ainda outras, consoante as suas intenções malévolas, conforme assim eu raciocinei na ocasião, prossegui:
─ Vocês não têm a mínima noção de quem eu seja e nem do que estou fazendo aqui neste mundo. Seus espíritos imundos! Eu nunca vi tanta patifaria e tanto engodo em toda a minha existência. Vocês estão pensando o quê? Que ficarão impunes com os crimes que estão cometendo? Deixem de ser estúpidos, pois essas suas condições de desencarnados não irão perdurar por todo o sempre. Tudo isso que vocês estão fazendo com os encarnados, causando conflitos e desentendimentos, destruindo as suas vidas, às vezes os levando até a desencarnação, sem darem o mínimo de valor à vida do encarnado, que julgam ser apenas brincadeiras, são perversidades criminosas, pois as nossas existências não se resumem à vida de encarnado e nem a de desencarnado, tal como vocês agora se encontram. Tomem vergonha! Não nas suas caras, já que vocês não têm caras, mas em seus espíritos, bando de infelizes! E tentem aprender a ser dignos das suas existências. Vocês vão pagar caro por isso que estão fazendo comigo, e muito caro. Aqui vocês estão se comportando dessa maneira comigo, mas eu quero ver os seus comportamentos é lá cima, quando vocês estiverem lúcidos e conscientes das suas ações. Aí sim, vocês vão constatar as suas próprias condições inferiores frente a frente comigo, nas mesmas condições de temperatura e pressão, quando cada um é realmente aquilo que realmente é, e não aquilo que julga ser. Saibam que eu vou reunir esse mesmo bando e vou dar uma lição a cada um que jamais será esquecida, por todo o sempre, para que vocês aprendam, para que vocês se regenerem, e abandonem de vez as suas ações criminosas, que só podem prejudicar a vocês mesmos, e a mais ninguém. Aguardem-me, então, pois atrás de tempo, tempo vem. O aviso está dado. E agora vocês cuidem das suas infelicidades, que eu cuido da minha. Adeus para todos vocês, e que passem bem, são os meus votos de estima e consideração, que vocês não têm.
Já é sabido que o mal tem que ser sentido, para que então possa ser devidamente combatido em todos os seus aspectos. Daí a razão pela qual eu tive que me submeter a todos os tipos de obsessões, tal como se fosse um joguete do astral inferior, para que assim pudesse sentir toda a pujança da sua força, mensurá-la em toda a sua intensidade, e depois então combatê-la, para finalmente vencê-la.
Luiz de Mattos foi laboratório do Astral Superior, dada as suas características de um ser ontológico, sem manchas, sem máculas e sem nódoas em seu espírito, portanto, sem qualquer embotamento, justamente por isso ele é um conhecedor, por excelência, o nosso Espírito Santo, o ajudador, o espírito da verdade, conforme consta até nos evangelhos bíblicos. Ele mesmo afirmou que era um instrumento do Astral Superior, mas que também existiam instrumentos outros, mas sem revelar abertamente que eu seria um laboratório do astral inferior, como que a prever que eu reencarnaria com tal objetivo, em minhas experiências científicas voltadas para o campo da espiritualidade, mais especificamente da baixa espiritualidade.
Daí a razão pela qual eu fui laboratório do astral inferior, dada as minhas características de um ser empírico, com manchas, com máculas e com nódoas em meu espírito, pronto para poder riscar e ferir a minha própria moral, posto que ela é individual, pois que tais manchas, tais máculas e tais nódoas em meu espírito, seriam irrelevantes quando comparadas aos meus grandes objetivos, às grandes finalidades a serem por mim alcançadas, tudo isso diretamente em prol da minha humanidade e da outra que nos segue na esteira evolutiva do universo, e, por extensão, das seguintes, justamente por isso eu sou um experimentador, por excelência, o nosso Antecristo, o nosso futuro Cristo, o espírito da sabedoria, que tendo como fonte a verdade, consegue alcançar a razão, ainda ausente neste mundo, por isso os verdadeiramente doidos me consideram como se o doido fosse eu. Mas se eu afirmo que fui laboratório do astral inferior, fui-o apenas em termos, deixando-me levar pelas suas intuições, pelas tentações mundanas, apenas para experimentá-las cientificamente, pois sempre senti em meu espírito as aversões a tudo isso, como que sendo forçado a essas experimentações científicas, mas forçado por mim mesmo.
Os próprios militantes da doutrina do Racionalismo Cristão temem as ações nefastas dos espíritos quedados no astral inferior, mas não tanto quanto os credulários temem os ilusórios demônios, e morrem de medo do próprio Satanás. Porém, tanto estes foram enfrentados por mim, quando o Astral Superior me colocou supostamente sozinho no antro do inferno para travar uma luta mortal contra o Satanás e os seus demônios, em que se sobressaiu toda a minha ética, como aqueles foram enfrentados por mim durante toda a minha vida, em que hoje, explanando o Racionalismo Cristão, eu provo que levei de vencida a tudo e a todos, pois a tudo nós temos que vencer, em todos os sentidos, pois o bem sempre vence ao mal, a luz sempre vence as trevas, a verdade sempre vence a ignorância, a sabedoria sempre a nescidade, e a razão sempre a fé credulária. E levei de vencida inclusive a todos os seres humanos, quer tenham combatido as minhas ideias, quer não, pois as minhas ideias são todas diferentes das representações imaginativas dos demais seres humanos.
Um exemplo disso se deu quando certa vez eu estava a expor determinadas ideias da minha lavra para o meu irmão mais velho, o Reuben, hoje já desencarnado, na ocasião em que ele percebeu que tudo aquilo quanto eu expunha vinha de contra a tudo aquilo que a humanidade pensava, inclusive ele. Considerando-me como se eu fosse assaz petulante, ao invés de demais autêntico e extremamente sincero, empregando uma certa ironia indisfarçável na voz, ele assim me perguntou:
─ Quer dizer que somente você está certo, e que o mundo todo está completamente errado?
─ É exatamente isso, meu irmão, somente eu estou certo, o restante do mundo está todo errado, inclusive você ─ assim falei empregando um tom na voz que dava a firmeza e a convicção da minha autenticidade e da minha sinceridade, mas que para ele soou como se fosse um simples incremento da minha petulância, mas pouco me importando acerca deste fato.
O que fazer? Eu tenho que provar para todos que o homem não é o produto do meio, como todos julgam que assim seja, em função da força da sua imensa influência, como assim pensam também os estudiosos? Mas muito pelo contrário, o meio sim, é que deve ser o produto do homem, do verdadeiro homem, que realmente tenha inteligência, coragem e boa vontade.
As características de Luiz de Mattos são tão diferentes das minhas, que quando o Astral Superior estava fazendo de tudo para levá-lo a cumprir a sua missão cá neste mundo Terra, os seus amigos o convenceram a assistir a uma sessão espírita, afirmando todos que lá somente se encontravam pessoas decentes, virtuosas, honestas, tendo sido ele convencido pelos amigos apenas desta maneira.
Por ocasião da sessão, um dos médiuns atua e passa a falar em outra língua. Impressionado com aquilo, sabendo de antemão que o médium era humilde e iletrado, mas sendo um homem decente, virtuoso e honesto, Luiz de Mattos, mesmo assim, foi investigar a vida desse médium, tendo realmente comprovado que ele não falava qualquer outra língua, além do português, e esta, muito mal.
Ao chegar em sua casa, Luiz de Mattos se concentrou e tentou imitar ao médium, ao que parece como se assim fosse falar alguma outra língua, além das que ele já sabia falar, mas sem conseguir alcançar ao seu intento, o que é óbvio, pois que ele não era médium de incorporação. Conta-nos Antônio Cottas que, nessa ocasião, ele poderia ter desencarnado, o que seria o maior desastre de todos os tempos para a nossa humanidade, por essa razão o Astral Superior não permitiu a sua desencarnação, assim como em diversas vezes a minha, através das armadilhas preparadas pelo astral inferior.
A segunda aconteceu quando nos encontrávamos nas ruas ou nos clubes, quando os meus companheiros de infortúnio ficavam olhando para todos os lados, sempre com os olhos arregalados, vendo policiais federais camuflados por todos os cantos. Isso me incomodava bastante, ocasião em que eu chegava para eles e dizia:
─ Cadê? Mostre-me onde estão esses filhos da p.…, que eu vou lá e dou umas porradas nesses filhos de uma égua.
Mas é lógico que não havia policial federal nenhum, pois eram também os espíritos quedados no astral inferior que estavam fazendo gozações com os meus companheiros, pois eles são em grande parte gozadores, e, em outra, maus e perversos.
Para acabar de vez com essa mania dos meus companheiros, eu saí sozinho certa vez e me droguei. Quando me considerei bastante drogado, coloquei um pouco da droga em um saquinho de plástico e me dirigi diretamente para a sede da própria polícia federal, pois o que eu pretendia fazer tinha que ser no próprio reduto policial. A policial federal que se encontrava de plantão na portaria olhou para mim, e eu fui logo dizendo:
─ Senhorita, eu lhe digo com sinceridade que estou drogado e que gostaria de ter uma conversa com os senhores policiais federais.
─ Aguarde apenas um instante, sente-se ali naquela cadeira, que eu volto logo ─ respondeu-me ela um tanto quanto nervosa e aflita, talvez pelo fato de que nunca houvesse se deparado com uma situação semelhante e tão fora do comum, pois era ciente de que os policiais federais eram temidos por aqueles que lidavam com drogas.
Eu não sabia, mas no contexto das minhas experiências científicas eu estava realizando uma pesquisa de campo.
Logo em seguida, veio em minha direção um grupo de uns dez ou doze policiais federais, entre homens e mulheres, todos olhando diretamente para mim, e eu, em contrapartida, olhando diretamente para eles. Como eles viram o meu semblante calmo, tranquilo e pacífico, pois eu não tinha ido para lá com a intenção de causar qualquer confusão, eles puxaram várias cadeiras e fizeram um semicírculo ao meu redor, sentando-se todos logo em seguida. Então um deles se dirigiu diretamente para mim e indagou:
─ O que o senhor deseja?
─ Eu estou usando droga, afirmo sinceramente, e gostaria de saber qual é o papel da polícia federal com relação aos que estão usando droga e não estão causando o mal a quem quer que seja, para que assim eu possa avaliar o medo que os demais têm em relação a vocês. Aqui está a droga em minha mão, mas eu peço o especial obséquio que não tentem tirá-la à força de mim ─ disse com calma, mas com firmeza e convicção, deixando bastante implícito que tal tentativa seria muito desagradável para ambos os lados.
Estando bastante intrigada com a minha conduta e com a natureza da pergunta, especialmente para quem se encontrava drogado, uma policial federal se dirigiu a mim, não sem antes observar com bastante atenção as partes internas dos meus dois braços, para constatar se eu me picava com agulhas ou não, a fim de que pudesse certificar se a pergunta era realmente racional, ou se fruto de algum delírio de alguém extremamente viciado. Tendo constatado a ausência de quaisquer marcas de perfurações de agulhas, indagou logo a seguir:
─ Por que você faz isso?
─ Eu vou responder com prazer, policial federal, mas a senhora não vai acreditar na resposta, então preste bem atenção ao que eu vou lhe dizer. Eu faço isso por experiência de vida.
O fato é que nós ficamos dialogando por um bom tempo, cujo diálogo eu não me lembro mais dos seus teores, mas que a experiência científica ficou gravada em meu perispírito, ficou sim. Quando, enfim, eu senti que não tinha mais o que falar para eles, resolvi indagar:
─ E afinal, depois de tudo isso, vocês vão me prender?
Todos eles sorriram em uníssono e disseram que não, solicitando que eu aguardasse em uma sala que logo alguém viria me buscar. Obedeci. Logo depois chegaram as duas mulheres, a ex-mulher e a atual, então ambas me levaram para casa, onde eu pude finalmente descansar, não sem antes me assear.
Mas o mais incrível de tudo isso é que o saquinho que continha a droga, e que estava em minha mão, sumiu de uma maneira tal que eu nem percebi, e até hoje eu não sei como ela desapareceu da minha mão.
O último episódio ocorreu quando eu já estava totalmente engajado na explanação da doutrina do Racionalismo Cristão, passando de cientista para saperólogo, portanto, já relativamente esclarecido sobre a vida fora da matéria.
Por volta das 02:00 para as 03:00 horas da manhã, estava eu tranquilamente dormindo em minha cama, enquanto a minha esposa estava lá embaixo fazendo alguns bolos para o aniversário de um parente, quando de repente passei a receber algumas sacudidelas pelas costas. Despertei e me virei para ver quem estava me acordando. Quando abri os olhos, deparei-me com um revólver calibre 38, duplo, com o seu cano longo encostado entre os meus olhos, estando o seu portador com o rosto encoberto com uma camiseta de malha, e outro ao seu lado, estando desarmado e com o rosto descoberto. O meu primeiro pensamento foi exclamar para mim mesmo: que chateação!
Em seguida, ergui-me, sem me levantar, e fiquei sentado na cama, avaliando de sobrolho, sem síncope, em plena consciência, a situação sob todos os seus aspectos mais relevantes. Mas, antes de tudo, eu dirigi os meus pensamentos rápida e diretamente a Luiz de Mattos, como se em uma fração de um milésimo de segundo, estivesse lhe alertando, da seguinte maneira: preste bem atenção ao serviço, Luiz, você me conhece, a prioridade para tudo é o Racionalismo Cristão, de agora em diante eu vou agir conforme as circunstâncias.
Embora eu já fosse um sessentão, tendo já passado da barreira dos sessenta anos de idade, avaliei logo a possibilidade de desarmar o bandido, pois conheço a técnica de tirar o revólver da mão do inimigo pelo lado direito, quando a arma está na sua mão direita, ou de quebrar o seu dedo indicador com a própria arma que está segurando, quando pelo lado esquerdo. Neste caso, eu teria que liquidar a ambos, pois não poderia permitir que eles fossem presos, passassem pouco tempo na prisão, e, logo em seguida, quando libertados, ambos viessem me assassinar de surpresa, à traição, sem que eu tivesse qualquer chance de defesa. Mas também avaliei o tremendo impacto que causaria em minha alma, caso eu viesse a desencarnar os meus semelhantes. Eu avaliava assim a situação, decidindo que atitude iria tomar, enquanto o bandido armado ficava perguntando onde estava o ouro, o dinheiro, as joias, e tudo o mais que para eles tivesse algum valor, a cujas perguntas eu respondia do modo mais adequado possível, mas sem lhe dar muita atenção.
De repente, adentra ao quarto um terceiro bandido, de arma em punho, que não sei dizer se era um revólver calibre 38, duplo, de cano curto, ou se um revólver calibre 32, duplo, pois que era pequeno, pela mesma porta que os dois bandidos anteriores entraram, pois eu sempre deixava aberta a porta do meu quarto que dava para a varanda, e esta era ligada diretamente ao muro do lado direito da casa pelo telhado do alpendre, por onde todos vieram.
Logo que ele adentrou ao meu quarto, esbocei um leve sorriso, pois não sabia que se tivesse reagido, teria tido tempo de desencarnar aos três, ou se o terceiro me desencarnaria. O fato é que eu não deveria reagir no recinto do meu quarto, tendo que me conformar em permanecer à mercê da situação. No entanto, a cada passo, a cada situação, a tudo eu avaliava nos seus precisos detalhes.
Ah! Eu quase que eu me esquecia de falar sobre o medo, já que ele não se encontrava presente no ambiente, pelo menos da minha parte. A realidade é que o nosso raciocínio e os nossos pensamentos devem ser também utilizados para avaliar a esses tipos de situações, e não para serem dominados pelo medo, que jamais deve imperar em qualquer situação, seja ela qual for. Assim, a calma e a tranquilidade devem apoiar o raciocínio e os pensamentos, para que eles possam ser utilizados plenamente, livres de quaisquer peias.
Após o meu quarto ser revistado, eu e os três bandidos saímos para os outros dois quartos que ficavam no andar de cima. Sempre com o bandido mascarado próximo a mim, apontando-me a sua arma, o que eu achei de bom alvitre para qualquer emergência, pois já tinha cá comigo como agir, caso realmente fosse preciso.
No corredor que serve de anteparo para os três quartos do andar de cima, o bandido mascarado olhou para mim e disse o seguinte:
─ Não se preocupe, senhor, que nós não vamos lhe matar.
Tais palavras fizeram com que eu relaxasse mais um pouco, pois eu também não tinha a intenção de matá-los, a não ser que fosse realmente preciso. Era o Astral Superior agindo para que a situação não findasse em um caso funesto. No entanto, o que eu havia arquitetado em caso de necessidade, continuava de pé.
Um dos quartos estava com a porta aberta, justamente o quarto da minha filha, que, felizmente, encontrava-se ausente, em viagem. O bandido que estava desarmado entrou, abriu o armário e afanou certa importância em dinheiro.
O outro quarto estava com a porta trancada, justamente o quarto em que estavam o meu filho mais novo e a sua esposa, com os meus dois netinhos estando a dormir no quarto de baixo, pois nessa época todos eles moravam comigo. Tendo ouvido o barulho das conversas dos bandidos, o meu filho acordou e abriu a porta do seu quarto para verificar o que estava ocorrendo, e, ao avistar os três bandidos, rapidamente fechou a porta. O outro bandido que estava armado deu um leve pontapé na porta, e o bandido mascarado que estava ao meu lado, exclamou alto o seguinte:
─ Abra a porta, então eu mato o seu pai!
Eu não me preocupei nem um pouco com a ameaça, mas fiquei bastante preocupado com a possibilidade do outro bandido armado atirar contra o meu filho, através da porta. Nesse momento, enquanto os três bandidos olhavam em direção à porta, eu estava a observá-los atentamente, pronto para agir, com a situação sendo a mim favorável, embora pareça contraditório, pois os três bandidos se encontravam olhando atentamente para a porta do quarto do meu filho, e nela concentrados. E caso o outro bandido disparasse contra a porta do quarto do meu filho, apenas a possibilidade de que o meu filho pudesse haver sido atingido, eu, imediatamente, tomaria o revólver da mão do bandido mascarado que estava ao meu lado, atiraria primeiro na cabeça do outro bandido que havia disparado, depois atiraria na cabeça do bandido mascarado que estava ao meu lado, e, por fim, na cabeça do bandido que estava desarmado. Sem qualquer vacilo e sem qualquer contemplação!
Mas, felizmente, o bandido não atirou. Então eu pressenti que não iria haver qualquer violência, e então, dirigindo-me ao meu filho, disse-lhe:
─ Meu filho, pode abrir a porta, que não vai ter problema algum.
Ele então abriu a porta, os bandidos adentraram ao seu quarto e afanaram alguns objetos eletrônicos. Estando tanto ele como a minha norinha, bastante nervosos.
Enquanto isso, a minha esposa, que havia escutado tudo lá de baixo, pois que estava a fazer bolos, acordou os meus dois netinhos, mandou que eles se escondessem no banheiro, foi para o portão da rua, e de lá chamou a polícia, permanecendo no portão à espera dos policiais.
Os bandidos desceram, juntamente comigo, o meu filho e a minha norinha, e ficaram vasculhando alguma coisa de valor pelas duas salas debaixo. Um deles pegou o meu computador pessoal juntamente como o meu pen drive que se encontrava sobre a mesa da sala de jantar, onde se encontravam os arquivos dos meus escritos, quando então eu lhe solicitei que me devolvesse o pen drive, sem brutalidade, mas com firmeza, tendo ele atendido à minha solicitação. Por fim, após afanarem mais alguns objetos eletrônicos, resolveram ir embora, exatamente pelo portão da rua, e não por onde vieram. Ao se aproximarem do portão, o bandido mascarado percebeu as luzes que estavam piscando acima da viatura policial, quando então alertou aos comparsas:
─ É a polícia!
Os três facínoras, então, saíram em debandada, adentraram na casa, subiram ao meu quarto, passaram pela porta que dava para a varanda, atravessaram o telhado do alpendre, correram por cima do muro, saltaram para o telhado da casa vizinha de trás, e foram embora. Uma senhora que morava nessa casa vizinha de trás, que estava grávida, ficou tão apavorada com a situação, que passou mal e teve que ser internada em um hospital da região.
No momento em que os bandidos saíram em debandada, os três policiais ficaram feito três palermas, inertes na frente da viatura. Eu então disse para eles:
─ Corram que os ladrões adentraram novamente na casa e vão fugir pela parte dos fundos.
Mas eles continuaram passíveis e inertes. Alguns instantes depois, após os bandidos haverem fugido, os três policiais foram verificar se os bandidos haviam se escondido em uma vila vizinha, com as armas nas mãos e se escondendo em tudo que era saliência, estando eu à frente deles. Então um deles gritou:
─ Cuidado, senhor, para não ser atingido!
─ Atingido pelo quê, meu amigo. Os bandidos já estão longe, era para vocês terem corrido atrás deles no momento em que eles saíram em debandada. Agora é tarde.
O episódio para mim estava totalmente superado, sem que eu desse mais qualquer atenção a ele. Mas o interessante de tudo isso é que alguns dias depois, conversando com o meu filho mais velho, perguntei-lhe:
─ Meu filho, você soube do assalto lá em casa?
─ Sim, pai, o Marley me falou. Poxa, pai, o Marley lhe elogiou prá caramba!
─ Elogiou-me, filho, em que sentido?
─ Ele disse que você estava calmo, tranquilo, sereno, “numa boa”, parecendo até que não estava na frente de uns bandidos armados.
Mas o interessante desse episódio, é que às vezes eu cheguei a contá-lo para alguns conhecidos, exatamente como agora acima está posto, apenas omitindo o comentário do meu filho mais velho. E quando eu contava a parte em que pensei reagir no início, e a parte da possibilidade de haver desencarnado aos três facínoras, caso um deles atirasse contra o meu filho, através da porta, eles olhavam para mim de um modo descrente, considerando que era tudo lorota, que era fanfarrice minha. Eu, então, por pura molecagem, reforçava o dito, afirmando que não tinha vindo a este mundo para desencarnar a quem quer que fosse. Então o descrédito aumentava ainda mais, como se eu mesmo estivesse a confirmar ainda mais que era um loroteiro e um fanfarrão. Mas todos engoliam em seco, sem ousarem se manifestar. Eu, pelo meu lado, saía morrendo de rir, sem dar a mínima trela aos meus conhecidos.
Mas o mais interessante ainda, sendo o fato muito engraçado, pelo menos para mim, aconteceu algum tempo depois, quando eu assistia o jornal pela televisão. O fato se refere a um policial que foi assaltado por dois adolescentes, que no momento do assalto entregou logo a sua pistola para os menores assaltantes, ao mesmo tempo em que implorava, pelo amor de Deus, que eles fossem embora. E isso, ele mesmo contando ao ser entrevistado por uma repórter de uma emissora de televisão. E aqui vem a parte deveras engraçada, ele estava contando o assalto sofrido sem conseguir conter a própria emoção. E novamente aqui vem novamente o mais engraçado de tudo isso: o policial se encontrava aos prantos.
Eta, que policialzinho medroso para o meu gosto!