24- Parte XX: Inflação: como domesticar essa fera

É sabido por todos nós que habitamos esta região linda e de dimensões continentais do planeta Terra, chamada Brasil, que um dos maiores problemas que nos afligem é a fera selvagem, tida como imbatível e invencível, chamada inflação.

Os efeitos devastadores que a sua ação acarreta é sentida em todas as classes que compõem a nossa sociedade: a política, a empresarial e a trabalhadora. E toda essa ação deletéria culmina os seus efeitos malignos, ao nos impor um quadro estacionário de crescimento econômico e até a um quadro decrescente de nossa economia, já tão combalida e desacreditada no mundo inteiro.

Detentora do poder e condutora das diretrizes que regem a nossa economia, fica a classe política a engendrar mil e uma fórmulas, em uma alquimia ridícula e estafante, como, por exemplo: a emitir os absurdos e temíveis “pacotes econômicos” que, por si, não resolvem absolutamente nada; a indexar e a desindexar a economia, pondo a nação em polvorosa, em virtude de contratos e acordos firmados com base em determinados índices; a elevar artificialmente as taxas de juros de forma insuportável e até criminosa; a congelar os preços dos produtos de forma unilateral, arbitrária e injusta, como se os empresários fossem os únicos responsáveis pelos ataques da fera; a congelar os salários da classe trabalhadora de maneira inescrupulosa, com requintes de perversidade e sem demonstrar o mínimo respeito pela sobrevivência digna da criatura humana, usurpando, inclusive, as suas escassas economias conseguidas à custa de muito sacrifício e renúncia; etc., etc., etc.

Agindo desta maneira, continua a classe política se comportando qual macaco em loja de louça, ou seja, a destruir irracionalmente tudo o que encontra pela frente; a agir igual a um franco atirador, que perturbado, louco e desvairado, atira em todas as direções possíveis, atingindo crianças, mulheres, trabalhadores, aposentados e demais inocentes de toda a natureza. Por fim, de tanto bater, bater e bater, tenta parar. Ou porque não existe mais um lugar sadio em que se possa ainda bater, ou porque, inchadas de tanto bater, as mãos já não aguentam mais. Fiquemos com a segunda opção, já que esse bicho é ruim e o que ele propõe para parar de bater é proposta de natureza alucinógena, efêmera, ilusória, pueril e delirante, o ridículo, farsante e mentiroso “pacto social” em outra versão mais bizarra, denominada de “entendimento nacional”.

E quem faria esse “entendimento nacional”?

Como para todo e qualquer entendimento, as partes têm que conversar com a mente liberta e voltada para a harmonia, a fraternidade e o bem comum; o espírito de renúncia revestido como fator preponderante; o egoísmo devendo ceder lugar ao altruísmo; a sagacidade, a matreirice e o poder de barganha devendo ser exterminados pelo senso do dever e da justiça; e o poder, em troca da dignidade humana. Tudo isso visando a felicidade da nação brasileira.

E de que forma poderíamos promover esse “entendimento nacional”, se as classes política, empresarial e trabalhadora, as envolvidas na mesa de negociações, não possuem a mínima afinidade de atração em suas representações? Poderíamos até compará-las com os personagens da estória popular formados pela onça, o bode e o capim, que um barqueiro queria transportar para o outro lado de um rio, mas que não podia levá-los todos de uma única vez, e, caso os deixassem a sós, um desses personagens poderia ser devorado por um dos outros dois, com a exceção da onça. No caso aqui em questão, a diferença é que os três querem se devorar.

A classe política, ao invés de ser formada ou representada por homens íntegros, que pratiquem a verdadeira moral e ética e façam de suas vidas públicas um verdadeiro canteiro de obras em favor do semelhante; na sua quase totalidade, é formada por homens corruptos, venais e prevaricadores, que subornam e são subornados, que atraiçoam e praticam todas as mazelas em favor da riqueza ilícita e da conquista do poder efêmero e passageiro; formada por homens que não praticam, e o que é pior, sequer conhecem a verdadeira moral e ética, por praticarem apenas a moral utilitária em parceria com aqueles que lhes são afins e que também se locupletam da mesma patifaria, sendo, portanto, coniventes; formada por homens ultraignorantes que desconhecem que a verdadeira vida pública é aquela destinada ao progresso, a evolução e a felicidade relativa do seu semelhante ou da comunidade a que representam, e não ao progresso próprio e material, e não à evolução do seu poder pessoal, e não à sua felicidade individual e materialona, própria de uma mente desenvolvida para a satisfação intemperada de sentimentos vaidosos, irresponsáveis e de grandeza.

São esses estúpidos, são esses animais quase quadrúpedes, são essas criaturas assuinadas, por possuírem um rei de lama na grande e desenvolvida pança, que querem promover e negociar um “entendimento nacional”?

Por outro lado, existe também a classe empresarial, que ao invés de ser formada, ou representada, por homens justos que promovam a riqueza e a distribua em relativa parte, proporcional e equitativamente com aqueles que são seus colaboradores diretos, indistinta e indiscriminadamente, exerçam a função ou o cargo que exercerem; na sua grande maioria, é formada por homens egoístas que preferem acumular riqueza e a usufruir nababesca e, geralmente, até perdulariamente da mesma, ao invés de nessa relativa parte, distribuí-la e contribuir com sua parcela para a elevação das condições da vida material do semelhante e, por conseguinte, da dignidade humana.

São esses supérfluos, são esses seres de um egoísmo primitivo, são essas criaturas fanáticas e radicais na satisfação do próprio ego, através da ostentação e posse de riquezas materiais, que devem negociar um “entendimento nacional”?

Por último, e como sempre, para não sair dessa regra injusta criada pela própria imperfeição da criatura humana, vem, em derradeiro lugar, a classe trabalhadora. Essa classe sofrida que, embora enganada e iludida em sua boa-fé pela primeira, e oprimida e explorada pela segunda, forma, entretanto, a nação mais evoluída e espiritualizada de todo o planeta. Para tanto, basta observarmos a pesquisa de opinião pública encomendada pela classe empresarial da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP, ao IBOPE. Nela, iremos constatar que a nação, em sua grande maioria, não se encontra apática ou desanimada; que ainda acredita no Brasil; que está disposta a morrer pela Pátria; que, embora pareça impossível para qualquer ser humano normal, ainda assim, está disposta, ressalte-se, com disposição incomum, a fazer ainda mais sacrifícios para tirar o país da crise em que se encontra; que se a classe política diminuísse os seus gastos e a classe empresarial os seus lucros, os recompensariam em triplo, ou seja, abrindo mão de qualquer reajuste salarial, gastando apenas o essencial e, ainda assim, que exemplo para o mundo, topando a recessão; e mais, muito mais ainda tem essa classe amiga, pacata, ordeira e otimista para mostrar ao mundo, pois, apesar de tudo, acredita que a vida vai melhorar e muito, tamanha é a confiança no seu país; que não concorda, porém, com as medidas econômicas da classe política e com a falta de diálogo com a classe empresarial.

O que mais alguém poderia exigir dessa classe, que por mais que eu me esforce nada consigo encontrar para mais exigir? A não ser que de repente o capiroto, satanás ou o próprio diabo em pessoa, com rabo, pés de bode, chifre, tridente e tudo o mais que a terrível classe sacerdotal inventou para amedrontar e, por conseguinte, dominar o povo, apareça e queira levar a alma de toda a nação. Mas isso é impossível! Em conformidade com as Leis Universais, os afins se atraem e os contrários se repelem, e a alma da nação brasileira, de há muito que, pelo seu altíssimo grau de evolução em relação ao planeta, pelos seus elevados atributos de amor, fraternidade, compreensão, tolerância e valor moral, encontra-se em afinidade e sintonia com as Forças do Bem. Estando, portanto, à salvo de perder o que de mais precioso e eterno possa existir: o verdadeiro espírito cristão.

Mas, infelizmente, essa classe não pode se sentar a uma mesa de negociações, em virtude de ser pela sua própria natureza de origem abstrata, invisível aos olhos físicos, por ser formada pela alma, o espírito do povo brasileiro. Em decorrência, falsos líderes, criaturas radicais, agressivas, renitentes, voluntariosas e completamente ignorantes da natureza humana, reunidos em grupos locais e nacionais, com os mais diversos nomes e siglas, acham-se os seus verdadeiros representantes, detentores da verdade e com direitos exclusivos de defender um segmento da classe trabalhadora, como se a mesma pudesse ser sacrificada e retalhada tal qual ocorre com um boi, porco, galinha ou bode. E ainda ao sentirem de leve o gosto do poder, não mais se contentam em apenas representar um segmento de uma classe. Querem mais! Muito mais! Por isso, passam a fazer todo o malabarismo possível para passar à classe política, a que simboliza o poder, para, assim, liderar toda a sociedade. E o que acontece quando chegam a ocupar cargos de alta responsabilidade? Que nos responda o nosso ministro, ex-sindicalista, Sr. Rogério Magri.

Serão também esses radicais, esses invejosos e despeitados das outras duas classes, que no auge da sua ignorância e agressividade sentar-se-ão à mesa para negociarem um “entendimento nacional”?

É claro que não! Enquanto a nossa humanidade não se conhecer a si própria, enquanto a ignorância e os baixos sentimentos imperarem no espírito humano, enquanto isso acontecer, nenhum entendimento poderá haver entre as criaturas, principalmente entre grupos ou classes.

Assim, enquanto a Filosofia não comprovar cientificamente que alcançou o seu objeto de estudo, qual seja, o de revelar os segredos da vida e o enigma do Universo; enquanto ainda não forem divulgados em nosso planeta os fundamentos de uma nova ciência que possa resolver os problemas da humanidade; vamos nós, à nossa maneira, tentar resolvê-los.

Infeliz da criatura que critica a tudo e a todos, sem que aponte as causas e as soluções inerentes ao objeto ou alvo de suas críticas. Assim, seguindo rigorosamente essa linha de raciocínio, passaremos, daqui para frente, a explanar as soluções para conter essa fera terrível chamada inflação, já que as causas já foram devida e exaustivamente apontadas, anteriormente. Que essa fera não é tão terrível assim como se pinta, já que não existe um mal que perdure para sempre, como diz a sabedoria popular, e já que, como provado ficará ao final destas páginas, o bicho é domesticável. Assim, dessa maneira, vamos enumerando cada passo que irá justificar e demonstrar a solução ora proposta, conforme o que segue:

  1. As inúmeras tentativas que fizeram de acabar com a fera foram infrutíferas e apenas alimentaram uma certa esperança na nação, para, logo em seguida, proporcionar uma desilusão ou frustração de redobrada intensidade, reduzindo o ânimo e a esperança daqueles menos fortalecidos. Em todos esses casos, a fera renasceu das próprias cinzas, cada vez mais forte, invulnerável e ameaçadora, qual o mitológico pássaro Fênix. Logo, devemos concluir: a tentativa de combatê-la, de guerreá-la, de exterminá-la e de matá-la, não vem sendo a solução.
  2. Se a luta contra essa fera é inglória, inútil e em vão, muito menos aceitável ou mesmo reprovável seria a convivência pacífica e tolerante aos ataques da mesma, pois nos tornaríamos vencidos, derrotados e humilhados pelas nossas próprias imperfeições. Ora, se não podemos mais lutar contra a fera, se não podemos permanecer passivos aos ataques da mesma, que caminho nos resta?
  3. É sabido de todos, o dito popular: “quem não pode com o inimigo, alie-se a ele”. Mas se aliar a ele para perder a própria autonomia, para perder os mais elevados valores humanos e a estima pessoal, é coisa que só poderia lembrar à quase totalidade da classe política, na ânsia de se conservar no poder, ou à grande maioria da classe empresarial, na ânsia ultradesejada de satisfazer a os instintos da ganância, do egoísmo e do lucro pessoal. Aliar-se aqui, no caso, é trazer o inimigo para o nosso lado e saber utilizar toda a sua força e ferocidade em prol dos nossos objetivos, unindo e obtendo um sinergismo como resultado. Em outras palavras: domesticando a fera.
  4. O primeiro passo a ser dado neste sentido, embora a princípio cause espanto e um certo desânimo, é congelar os preços de todos os produtos e serviços por um período de 30 dias, anunciando com a devida antecedência a medida, visto que a coisa é séria e, sendo séria, deve toda a nação tomar conhecimento das medidas com antecedência, para que cada um possa realizar os seus estudos e análises devidos, e, consequentemente, adotar as medidas que achar justas e necessárias à sua pessoa, sendo inteiramente justiçado, e não, como acontece hoje em dia, atraiçoado e pego de surpresa com medidas imprevistas.
  5. No período que antecede ao congelamento, devemos deixar a fera livre e à vontade para atacar onde, quando e como quiser, para ela saber e se certificar de que todo e qualquer ataque seu apenas fere, nunca mata. E mais, para observarmos aquelas criaturas transformadas em abutres, que se alimentam das vítimas desses ataques, insuflando e disparando seus arpões venenosos na traiçoeiríssima tentativa de se obter mais vítimas, e, por conseguinte, mais despojos ou carniças com que se alimentar. Estes serão os primeiros a se manifestarem contra as medidas contidas nesta racional solução.
  6. No período de congelamento, deve-se fazer uma análise honesta, justa e criteriosa das perdas salariais relativas ao período compreendido entre o primeiro dia de congelamento, exclusive, é claro, e os dois últimos anos. Devemos atentar para o fato de que, teórica e praticamente, o período de maior ataque da fera, ou seja, ao que antecede ao congelamento de 30 dias, justo e previamente anunciado, encontra-se aqui nestes dois anos.
  7. No último dia de congelamento, isto é, no 30º dia, deverá ser concedido um reajuste em todos os salários, pelo exato percentual das perdas sofridas neste período de dois anos. A classe trabalhadora, alma da nação brasileira, abdica, abre mão, renuncia à defasagem dos últimos cinquenta anos, cumpre com a sua obrigação, faz a sua parte nesse entendimento; a classe política adota a medida, aprova no Congresso, sanciona, transforma em lei, cumpre também com a sua parte; a classe empresarial, por sua vez, tem todo o tempo necessário para armar a sua estratégia, precaver-se, adotar suas medidas, tomar suas decisões e continuar a enriquecer o nosso país, por isso, cumprindo também com a sua parte.
  8. Resta-nos mais um ponto. Se a inflação é a grande causadora da perda do poder aquisitivo da classe trabalhadora nos últimos cinquenta anos, pelo menos; se é a grande responsável pelo entrave do nosso crescimento econômico, que tanto abala e prejudica à própria classe empresarial; e se também é a grande culpada da classe política querer arrecadar cada vez mais sobre cada vez menos, o que leva tudo ao caos, à sonegação, ao suborno; é justo, correto e esperado que sejam elas os instrumentos de reversão deste triste quadro. Atentemos que, daqui para frente, todas as perdas dos últimos dois anos já estão repostas e que partiremos todos de um ponto com inflação zero, em condições mais ou menos iguais.
  9. A relação de trabalho de qualquer assalariado é com o próprio empregador, ou melhor, com a empresa para a qual ele trabalha, e não com sindicalistas, e não com a classe política, e não com outras empresas, quer sejam do mesmo ramo ou não. Isso quer dizer que se uma determinada empresa vai mal, ela não pode e nem deve ser agravada com custos adicionais, aqui no caso com o de pessoal, só porque os sindicalistas impuseram, porque a classe política assim o determinou, ou porque as outras empresas do mesmo ramo assim o fizeram. Ficando entendido, então, que ela não majorará os preços dos seus produtos, visto que a tendência é mantê-los, ou até baixá-los, para que o volume do seu faturamento seja passivo de incremento e consiga maior fatia de mercado.
  10. Caso uma determinada empresa majore os preços dos seus produtos, ficará entendido que ela se encontra em uma boa situação, visto que, ou a oferta se encontra bastante aquém da demanda, ou a enorme eficiência e dedicação dos seus funcionários conquistaram a preferência do consumidor. Em ambos os casos, em contrapartida, devem estes funcionários receberem os repasses do percentual dessa majoração em seus salários. E mais, e aqui é o fator relevante, é o ponto fundamental, é a pilastra mestra, ou o “pulo do gato”, como se diz. Deve ser concedido a esses funcionários a título de produtividade, de reposição, de domesticação da fera, de crescimento econômico, ou seja a que título lhe arranjarem, um acréscimo de 10 % ao próprio percentual de majoração de preços dos produtos que foram também repassados aos salários.
  11. Se uma criança recém-nascida, portanto, ainda virgem de sentimentos inferiores, analisar os fatos, perceberá que ocorrendo qualquer inflação o poder de compra se verificará sempre acima dela, e o que é mais importante, sempre crescente. E perceberá também que isto, tanto é bom para a classe política, quanto para a classe empresarial, como também para a classe trabalhadora. ESTÁ DOMESTICADA A FERA!
  12. A solução, ou melhor, o enquadramento nesta teoria dos trabalhadores públicos, bancários e outros segmentos desta classe, não caberia no reduzido espaço deste artigo, visto que todas as analogias, comparações e equiparações, bem como todos os dados e fontes de informações, deveriam também vir acompanhadas das devidas justificativas e explicações.

Que todos analisem com o espírito desarmado e sem melindres, é apenas o que peço.

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