23- Parte XIX: Carta à minha segunda sogra

Fortaleza, 12 de novembro de 1991

Sra. Valdenite,

Que o Astral Superior, os Espíritos de Luz que já não mais habitam a atmosfera infecta, pesada e deletéria deste planeta chamado Terra, possa ter as condições de se aproximar de vós e espargir os seus fluidos benéficos sobre o vosso espírito, intuindo-a para o bem e para o uso do raciocínio.

Porém, enquanto isso não acontece, enquanto nessa vossa mente suja, hipócrita, fofoqueira, ignorante e ultraperversa estiver reinando sempre o mal, devidamente povoada por espíritos baixos, imundos e doentios, afins ao vosso estado psíquico, vou respondendo à vossa muito estúpida e malcriada carta.

É vossa mentira, e mentira muito da safada, repugnante e nojenta, que algum dia eu tenha batido na minha muitíssimo querida e amada filha Taluana. Se vós não fosseis tão estúpida e ignorante, saberíeis que bater é a mesma coisa que dar uma ou mais pancadas, sovar e até lutar corpo a corpo contra alguém. Sendo tal procedimento, para mim, revestido de sentimentos baixíssimos e deveras atrasados, algo que eu só praticaria em legítima defesa própria, ou do semelhante indefeso, e mais, algo que eu não faria nem com uma mulher-bicho tipo vós, coisa que o vosso próprio ex-marido, não resistindo, fazia sempre quando essa vossa natureza de mulher-bicho se manifestava. E ainda mais: cansado de tanto bater em quem não presta, em quem não se vê progresso, terminou por encontrar em sua vida alguém mais civilizada e mais humana do que vós, ou seja, mais mulher e menos bicho, e a abandonou, como abandoná-la deverão todas as criaturas dignas que tenham a desventura da vossa bruxulesca convivência.

Se ainda não fosseis tão estúpida e ignorante, saberíeis que palmada é a maneira de se dar com a nossa palma da mão na outra para se aplaudir alguém que praticou um gesto merecedor de louvores e considerações, ou, e aqui é o meu caso, para se corrigir um filho querido, uma filha adorada, ou uma criança amada qualquer, que estando a sua dependência moral e educacional sob as nossa responsabilidade, e não tendo ainda atingido a idade dos 7 aninhos, idade esta considerada como limite para tal tipo de reprimenda, visto que, a partir daí, ele atinge a sua consciência pessoal e das coisas, embora ainda de forma infantil, deveremos sempre agir dessa forma, para que os seus pequeninos desejos para o errado, suas pequeninas birras, como também a sua disciplina e educação sejam corrigidos e elevados ao máximo. E isso, mulher-bicho, foi o que eu fiz, faço e continuarei a fazer, para o próprio bem dela.

Diferenciado estando, pois, o que seja bater, coisa que eu não fiz, não faço e que jamais farei; do que seja palmar, coisa que fiz, faço e continuarei a fazer, para o próprio bem dela, como atrás ressaltei. Pois bem, diferenciado estando, vou vos dizer agora o motivo pelo qual a vossa neta, porém minha filha, levou esse pequeno corretivo benéfico à sua educação.

Sou totalmente contrário ao ato de se colocar, ou de se permitir que uma criança, após certa idade, coloque um determinado objeto na sua pequenina boca, limpa por natureza, com a intenção de permanecer simplesmente chupando. Seja esse objeto uma chupeta, bico de mamadeira, ou apenas o próprio dedinho. Pois além de viciar a criança neste procedimento, tais objetos, incluindo o próprio dedinho, por estarem em constante contato com o chão e outras coisas mais, podem acarretar infecções e outras doenças tais.

E foi exatamente esse procedimento que eu adotei para com a minha filha. Proibi-lhe que chupasse bico, chupeta, dedo, bico de mamadeira e demais objetos afins, coisa que já estava praticamente conseguida. Digo praticamente conseguida porque, com raríssimas exceções, ela ainda chupava o bico da mamadeira, quando deveria beber o que estava em seu conteúdo. Mas, nestas raríssimas vezes, sempre me fitava com os seus olhinhos de culpada, quando por acaso eu a pegava em flagrante, prova inconteste de que era ciente do erro e da desobediência, portanto, passiva de duas palmadinhas para aprender, para se corrigir e para obedecer.

Pois bem, recentemente, cujo dia não me importa e nem me interessa, absolutamente, viestes vós, da vossa cidade, para aqui, na minha casa, no meu lar, junto com a minha família, passar alguns dias. Dias esses que, por mais que a vossa alma peçonhenta tente envenenar, jamais deixou de ser tratada com o devido respeito, o máximo de cordialidade, conforto, e até, posso dizer, já que me esforcei para proporcionar, luxo. Apenas alertei a vossa filha, minha mulher, para que prestasse mais atenção aos vossos modos ultra-exagerados para com a criança. E vós, mulher-bicho, safada e venenosa, éreis mais do que ciente das minhas determinações do lar. Principalmente com relação ao fato de a criança não chupar, por hipótese alguma, o que quer que fosse.

E aqui vem o vosso primeiro desrespeito para comigo, pois, ciente disso, descumpriu as determinações de quem era o dono da casa, e que, mesmo assim, continuou a vos tratar bem. Porém mais, muito mais ainda vós fizestes, víbora rasteira e traiçoeira, pois leváveis a criança para o quarto e ficáveis, como o vulgo diz, na surdina, escondida de forma traiçoeira, covarde e repugnante a dar o bico da mamadeira para a satisfação infantil da criança. Não percebíeis estar ensinando a criança a ser tão pusilânime, matreira e vil quanto vós? Não percebíeis incutir, neste acoitamento, a desobediência no espírito da criança? Não percebíeis estar ensinando a própria neta, minha filha, a saciar escondida, ou em uma expressão mais atinente a vós, na moita, algum desejo combatido? Não percebíeis estar deformando o caráter de uma futura esposa e mãe de família? Não percebíeis estar moldando uma futura avó bem ao vosso quilate: rasteira, desprezível e virulenta?

Não! Infelizmente a lama infecta e imunda que inunda a vossa alma, não deixa que um único raio de luz possa vir iluminar a essa mente tão atrasada. Pois esse amor doentio que sentis pela neta, que por ser doentio, deixa de ser amor, e passa a ser paixão, paixão que cega, que avilta, que aniquila e que modifica a forma de ser da vítima, ou seja, daquela que é objeto desse sentimento tão insano, quanto inferior; ainda mais estragos causou na alma dessa tão feliz pequena, por ter pais tão esclarecidos, e causou ainda mais estragos, quando vós, no pesadelo delirante dessa vossa irracional paixão, satisfazíeis a todo e qualquer capricho infantil da criança, chegando ao ponto dela chorar-gritar-berrando quando, sem a vossa perniciosa presença, os seus caprichos de criança não eram satisfeitos. E mais: alterou profundamente e por completo a sua forma de chorar. Por todo e qualquer motivo, fosse o que fosse, lá estava ela a chorar-gritar-berrando, qual como se estivesse vendo o próprio satanás em pessoa, da forma mais horripilante possível, da mesmíssima forma como deve ser a vossa alma.

Queríeis, então, que eu, pai por todo o amor e carinho que manifesto e sou retribuído; pai por ser ciente da minha inteira responsabilidade; pai por ser estrito cumpridor dos meus deveres; e pai por, também por ela, assim o ser considerado; aceitasse passiva e covardemente a vossa forma distorcida do desenvolvimento educacional da criança?

Respeitai-me, criatura! Estais lidando com um verdadeiro homem!

Vejais como a história não é bem assim como a que vós quereis incutir na mente das pessoas mais simples e que ainda não conseguem ver a peçonha que vós representais. Mas vamos ao fato final que culminou na vossa tresloucada, mas benéfica para nós (eu, mulher e filha), partida.

Era exatamente 01:00 hora da manhã, como poderiam ser 02:00, 05:00, 11:00, ou quaisquer outras horas, do dia ou da noite, quando observei minha filha, que estava deitada entre mim ea minha mulher, mas de costas para mim e com o travesseiro a lhe encobrir o rosto, que por isso estava escondido, como da mesma forma escondida estava ela a chupar o bico da mamadeira, a qual tomei das suas mãos de maneira enérgica, e com severidade na voz retruquei:

— Você não sabe que o papai não quer que você chupe o bico da mamadeira?!!!

Por conseguinte, dei-lhe duas palmadinhas. Uma em cada mão. E qual não foi a minha surpresa e desencanto, quando ela começou a chorar-gritar-berrando, qual vós, mulher-bicho, a havíeis ensinado. Dessa forma, e sempre ciente do meu papel de pai, adverti-lhe ainda mais severamente para que ela: ou chorasse de forma normal e natural, ou se calasse imediatamente.

Tudo isso que se passou no meu quarto, vós, mulher-bicho, sois testemunha, pois escutastes, como se diz, tim-tim por tim-tim. E ainda fostes arrotar a tua peçonha no dia seguinte, logicamente longe da minha presença, ao afirmardes haver tido vontade de arrombar a porta do quarto e, de forma ainda mais violenta, arrancar a criança da presença dos pais. Bafo, mulher-bicho! Muito bafo de onça! Que também é bicho do mato, mas não tanto traiçoeiro o quanto vós sois. Mas, se tivésseis tido tal petulância e ousadia, que tenho certeza vós não tendes, pois a loucura de quem não presta termina na ponta do medo das consequências, ou seja, esbarra na própria covardia; pois bem, se tal petulância e ousadia houvesse ocorrido, iríeis verificar no vosso próprio traseiro, tão sujo quanto vossa mente, o quanto dói umas palmadas de verdade. Não as de amor que dou em minha filha, mas umas de real verdade aplicadas por uma mão pesada de quem nada teme.

Pois bem. Ficando a limpo que sois realmente mulher-bicho. Ficando a limpo a vossa inteira falta de razão e bom-senso. Vou, de ora em diante, dar os nomes aos bois, ou seja, dar o nome do bicho. Vou vos dar uma denominação mais apropriada à vossa natureza. Vou vos denominar de mulher-cobra. E como pretendo vos dar a paulada final para matar o bicho, ou seja, a cobra que mora em vós, afirmo: vou matar a cobra! E como o ditado popular diz que “quem mata a cobra, tem que mostrar o pau”, vou mostrá-lo para que todos possam ver o que matou a cobra.

Logo no início da vossa carta, vós dizeis para a vossa filha “estou lhe escrevendo para lhe dar os preços das costuras que você nem sequer me perguntou”. Vós sois mais do que ciente de que a vossa filha, além de não vos perguntar sobre os preços das costuras, também outra coisa além não vos ousou perguntar, pelo triste fato de haver observado o lastimável estado psíquico de agressividade em que vos encontráveis. E mais: temia até em vos acompanhar ao terminal rodoviário, receando alguma atitude mais insana de vossa parte. E se foi, foi somente porque eu a determinei ir, pois não permiti que ela deixasse de cumprir o papel de filha, em contrapartida ao lastimável fato de não haverdes cumprido com o vosso papel de mãe. Um erro não justifica o outro. Ainda assim, fostes vós — sem olhar para ninguém, quando todos a fitavam; mal educadamente, quando todos lá estavam por educação; com a cara mais amarrada possível, quando todos estavam de semblante livre — quem saiu qual o cão em busca de reza. E vós queríeis o que? Que ela fosse vos paparicar? Deveis vos mancar, mulher-cobra!

Mais adiante, vós dizeis: “é desaforo eu sair da minha casa, trabalhar feito uma condenada, ver as crueldades do Marcos e ficar quieta, isto para mim é a pior coisa que eu já presenciei na minha vida”. Aqui, a mentira se une ao masoquismo, à infâmia e à covardia. Surge a mentira quando afirmais que é desaforo sair de casa, visto que a iniciativa foi vossa e somente vossa, e mesmo quando após houvéreis tido a iniciativa de sair, ninguém haver vos obrigado; e a mentira mais se avoluma quando afirmais haver trabalhado feito uma condenada, quando na verdade eu vos levava para passeios na praia, para fins-de-semana em casa de praia de nossa família, e ainda vossa filha vos levava para passear no comércio, etc. Isso é trabalhar? Isso é trabalhar feito uma condenada? Surge agora a infâmia, quando afirmais ver as crueldades do Marcos, quando está fartamente provado nas páginas anteriores, que essas “crueldades” estão apenas na vossa cabeça peçonhenta de mulher-cobra. Finalmente aparece a vossa covardia, quando afirmais ficar quieta; ora, senhora-dona mulher-cobra, eu, ou mesmo qualquer outra pessoa que tenha um mínimo de moral, e que não se considere covarde, jamais ficaria quieto ao presenciar coisas erradas ou que firam a dignidade humana; se vós ficastes, como achais ao afirmar, é porque sois realmente covarde e pusilânime. Agora, façais minhas as vossas palavras quando afirmais: “isto para mim é a pior coisa que eu já presenciei na minha vida”, continuando agora, só eu, pois nunca havia visto tanta cafajestada de uma só vez em alguém, que ainda por cima se acha “indignada”.

Se eu fôra comentar todas as mazelas e venenos que estão contidos em vossa estúpida carta, passaria, por certo, uma existência, pois que a mesma encerra quase que a totalidade das imperfeições humanas. Vós, decerto, desconheceis que tudo aquilo que se escreve, a tudo se lhe revela a alma. E que alma mais imunda, negra e monstruosa vós revelais quando afirmastes que “pegava a filha e se matava!”. Observe a nojeira do vosso estado mental, como a vossa podridão aumenta quando vós mesmas afirmais: “vou pedir a Deus que tenha compaixão da minha neta e a tire das garras desse monstro, nem que seja para debaixo da terra, pelo menos a dor é grande, mas tenho certeza que não bate mais nela”. Basta, mulher-cobra! Que todo o vosso veneno se limite ao próprio buraco em que viveis. Sois capaz da loucura das loucuras! É praticamente impossível a vossa regeneração, ainda nesta encarnação.

Vejais agora, observais bem o que vai sobrar para vós: enquanto demonstrardes essa tendência suicida e homicida, jamais colocareis as patas na minha casa; jamais permitirei que vos aproximeis da minha filha; e jamais receberei cartas, telefonemas, ou seja lá o que for, que venha de vossa parte, sem a devida regeneração. E tudo isso extensivo à minha mulher. Sois, portanto, considerada uma criatura nociva ao bom convívio.

Mandarei também uma cópia desta carta aos vossos familiares e aos vossos vizinhos, para que todos saibam que tipo de bicho sois: cobra! E vós sabeis perfeitamente o porquê. Sabeis, eu afirmo, porque nessa vossa cabeça que contém mais veneno do que juízo, deve conter também um pouco de memória. Contendo um pouco de memória, devereis lembrar do grande prazer que sentistes quando na malvada carta afirmastes que “as mulheres daqui da rua ficaram horrorizadas, não acreditaram que aquele homem que a gente via agarrado com a Taluana fizesse isso… elas me pediram desculpas, mas falaram que tu não és mãe, és cruel e monstra, igual a imagem de vocês é esta aqui e em todo lugar que eu passar é isto, porque todo mundo vai saber…”.

Sabendo agora que tipo de bicho vós representais. Sabendo agora que esse bicho é o bicho-cobra, sendo vós, portanto, mulher-cobra, como bem demonstrado está, em tudo e por tudo, de cima para baixo e de baixo para cima, vou agora fazer um alerta àquelas criaturas que vós envenenastes com a vossa lábia, com a vossa matreirice, com a vossa invencionice, com a vossa fofocagem de mulher-cobra que está no cio, que para satisfazer a os instintos bestiais, encontra-se a se arrastar por trilha incerta à procura de parceria, de homem-cobra, que lhe satisfaça a esses instintos. Como bem disse: a trilha é incerta. O homem que vós encontrastes não tem a mínima semelhança com a vossa raça de réptil. É homem com H maiúsculo. Humano e espiritualizado. Que mata a cobra e mostra o pau! E que, finalmente, vem fazer o alerta: “diga-me com quem andas, e te direi quem és”, dizia o Nazareno; “Quem com porcos se mistura, farelos come”, diz o vulgo popular. Pois bem, esse alerta é para que as pessoas que convivem com esse tal tipo de bicho, possam se precaver e se afastar a tempo, evitando, assim, de serem mordidas por sua boca venenosa. Caso contrário, caso gostem e aceitem essa convivência de forma passiva e prazerosa, é porque são exatamente iguais a ela. E como os afins se atraem, é porque estão em boa companhia umas das outras.

Para o vosso consolo mulher-cobra, fiqueis ciente que ignorância é para se compreender e tolerar. Havendo compreensão e tolerância, não é necessário o perdão. Não sendo necessário o perdão, torna-se necessária a regeneração, para que haja a união. E esta, é a única forma de poderdes vos aproximar novamente de nós. O caminho é vosso, basta apenas vós seguirdes. E vereis, caso consigais percorrê-lo, como é belo e luminoso o que encontrareis. Esperaremos felizes e cuidando das nossas próprias vidas.

                                                                                    Felicidades,