01- JUSTIFICAÇÃO DA FILOSOFIA
Entre as ciências que existem e existiam até hoje, a Filosofia se apresentava como sendo a mais abstrata e a mais afastada dos interesses vitais e das necessidades humanas. No entanto, este preconceito era devido ao próprio fato de se ignorar a Filosofia e o homem. Na realidade, a Filosofia era inegavelmente a disciplina mais necessária e a mais viva entre quantas se estudavam na escola e se afirmavam na verdadeira cultura.
Nas escolas superiores se estudava e ainda se estuda a História da Civilização, em cujo âmbito não se pode dar aos acontecimentos humanos unidade verdadeira e satisfatória explicação. Quem é o homem na história, ator ou comparsa, servo ou senhor? Qual a origem e o fim da humanidade? São indagações que escapam à História. O caminho da História é progresso, regresso, retorno eterno, ou é repetição cíclica? Por que existe o mal, e muito mal, de que estão cheias as crônicas da humanidade? Todos estes são problemas que surgem da História, mas a História não os resolveu.
Nas escolas superiores se estudavam e ainda se estudam também as ciências matemáticas, físicas e naturais. E aqui também, outros e mais graves problemas assomam. Que é, no fundo, a realidade física, cujos aspectos exteriores e múltiplos as ciências estudam? Que é a matéria, a força, a vida, a sensibilidade, o espaço e o tempo? Qual a origem do mundo e dos seres vivos? Outros tantos problemas suscitados pelas ciências, mas que elas também não resolveram.
Ainda nas escolas superiores, tinha e ainda tem parte preponderante a literatura e a poesia, que são artes. Por certo que essas artes são, espiritualmente, superiores à História e às ciências, pela visão profunda e universal do mundo, da vida, das coisas e dos homens que elas proporcionam; vindo daí o famoso e justo conceito da eternidade das obras de arte. No entanto, a intuição do artista é sempre fantástica, sentimental e sensível, desprovida, portanto, de raciocínio lógico e realista. Por isso, embora proporcionando essa visão, jamais resolveram os problemas da humanidade.
Por fim, entre as matérias de ensino nas escolas superiores, tinha e ainda tem lugar de destaque também a religião, o cristianismo religioso, que, sendo a fé do povo, é aprendido e praticado pela maioria, na família e na vida social também. A religião também, sem dúvida, não resolveu os grandes problemas humanos. Pois, em cada homem, e especialmente no homem detentor da verdadeira cultura, consciente de si mesmo, o cristianismo religioso pede uma base racional, pois a fé é racional obséquio. Para crer no cristianismo religioso, é preciso, logicamente, que o homem tenha antes a certeza da existência de Deus, da alma, da Revelação e da Igreja.
Pois bem, a Filosofia, e unicamente a Filosofia, reuniu as condições de dar uma solução racional a todos estes problemas imprescindíveis da História, das ciências, das artes e da religião.
A realidade toda era, pois, esses problemas que exigiam solução. O homem queria saber o porquê de cada coisa, de cada fato e de cada fenômeno, pelo motivo de que aquela coisa, ou aquele fato, ou aquele fenômeno, não era plenamente claro em si, mas pedia algo que o tornasse claro. Os porquês que nós podíamos e devíamos propor para explicar as coisas, os fatos e os fenômenos do mundo da experiência, o mundo físico, não encontravam resposta satisfatória nesse mundo da experiência, ou físico. Por conseguinte, a fim de que pudéssemos satisfazer a esta exigência racional, para tornarmos claro o mundo da experiência, ou físico, éramos obrigados a transcendê-lo, em virtude dos próprios princípios de causa e de efeito que tínhamos aplicado ao mundo da experiência, ou físico, para compreendê-lo, e nos contradiríamos se tivéssemos restringido ao âmbito da experiência, ou físico, esta exigência de clareza.
Este transcender ao mundo da experiência, ou físico, para explicar e entender a esse mesmo mundo da experiência, ou físico, era o que nós ainda chamamos de FILOSOFIA, mais precisamente, metafísica, isto é, a ciência que transpunha o mundo da experiência, ou mundo físico. A experiência, ou o físico, era relativo, contingente, passivo de ser ou não, variado e variável; e pedia, necessariamente, um absoluto, um verdadeiro, uma unidade e um imutável, que a justificasse. Fosse qual fosse o modo de conceber ou qualificar este absoluto, toda Filosofia aí deveria chegar. Isto queria dizer, que toda Filosofia haveria de ser metafísica.
02- A VIDA E O UNIVERSO: DOIS GRAVES PROBLEMAS POR RESOLVER
Finalmente, a vida era um grave problema por resolver. Tanto mais quando se pensava, por exemplo, no mal, no pecado, no sofrimento e na morte. Não apenas e não tanto os problemas da vida econômica, da profissão, da família, etc., pois seria como colocar o carro adiante dos bois, pois estes problemas não eram a finalidade última da Filosofia, em virtude de suas soluções dependerem de se resolver primeiramente aquele grave problema: o segredo da vida, e, em decorrência, o enigma do Universo.
O homem vivia e sentia, como o animal; mas, além disso, pensava e queria, o que o animal não fazia. Ele não possuía a inocência do animal, que podia se abandonar à sensibilidade e ao instinto para se orientar na vida; mas, primeiro, deveria conhecer bem o que ele era, e, logo, conhecer o mundo e a realidade de que fazia parte, e depois, somente depois, é que poderia viver, orientar-se livremente, em conformidade com este conhecimento profundo.
Poderia o homem se desinteressar de demonstrar a Filosofia considerada como ciência que resolveria os problemas da realidade; no entanto, não poderia ele se desinteressar da Filosofia considerada como ciência que resolveria os problemas do segredo da vida e do enigma do Universo. Pois, se podia deixar de especular, não podia deixar de viver como homem, racional e livre. Quem ignorava ou recusava tudo isto não filosofava, deixava de filosofar. De qualquer forma, ciente ou não do fato, sempre buscava teorias ou emitia opiniões sobre tudo, “filosofando” igualmente. Porém, a sua “filosofia” era vulgar, acrítica e irracional.
A Filosofia era, portanto, uma disciplina de que não se podia prescindir. Era a mais alta e a mais necessária das ciências. E era precisamente por este motivo que custou os maiores esforços da humanidade inteira. A Filosofia se foi construindo e chegando ao seu final, através de uma dramática história.
Neste livro, depois de serem postos concretamente os problemas da Filosofia, serão esclarecidas as grandes soluções que, sucessivamente, lhes foram dadas. Isto faremos, não porque achemos que a Filosofia se identifique com a sua história, onde ao lado do verdadeiro sempre se encontra o erro, mas para que mais fácil, gradual e vivamente possamos assimilar o grande organismo que ela representou.
03- PROBLEMAS DA FINALIDADE ÚLTIMA DA FILOSOFIA
Afirmamos anteriormente que a Filosofia, e unicamente a Filosofia, foi capaz de encontrar uma solução racional a todos os problemas imprescindíveis da História, das ciências, das artes e da religião.
Também, fora dessas escolas, dessa cultura e até da Filosofia, por ser sua finalidade última, encontramos problemas prementes, dos quais, não podemos prescindir.
Antes de tudo, o problema político, que nunca preocupou a humanidade como hoje em dia. O problema político tão premente que pode exigir do homem até o sacrifício da vida.
Mas, mesmo que a humanidade prescindisse desse problema, ficariam, por exemplo: os grandes problemas da guerra e da paz, da força e do direito, do estado e do indivíduo, da autoridade e da liberdade, das nações e da humanidade, e do capital e do trabalho.
Estes problemas todos, embora estudados pelas chamadas ciências humanas, tais como: Ciências Políticas, Sociologia, Assistência Social, Psicologia, Psiquiatria, Economia, Administração de Empresas, etc., estão recheados de “soluções” teóricas provenientes destas ciências, que, até hoje, pouco ou nada resolveram.
Mas, estas ciências, até hoje, pouco ou nada resolveram, porque suas bases estão amparadas, única e exclusivamente, no mundo da experiência, ou físico.
Ora, se a Filosofia, que foi a ciência que solucionou o problema do segredo da vida e desvendou o enigma do universo, teve que transcender ao mundo da experiência, ou físico, para buscar essa explicação, é de se perguntar: como o homem pode viver e se orientar livremente, em conformidade com esse conhecimento profundo, retroagindo e buscando essas soluções no próprio mundo da experiência, ou físico?
É lógico que a busca de como viver e de como se orientar, tem que continuar transcendendo ao mundo da experiência, ou físico. Porém, a Filosofia já abriu as portas da ignorância e nos colocou de frente com a verdade. A verdade verdadeira que Platão afirmou ser a sua ignorância um dos maiores males que afligem o mundo. E a mesma verdade que Jesus afirmou ser capaz de libertar a humanidade das garras da ignorância e prepará-la para o cumprimento do dever.
Faz-se necessário agora, portanto, uma nova ordem de coisas. O homem terá que viver e se orientar como previu o veritólogo Anatole France, ao afirmar que:
“A paz mundial se realizará um dia, não porque os homens se tornarão melhores, não é permitido esperá-lo, mas porque uma nova ordem de coisas, uma ciência nova (grifo meu), novas necessidades econômicas, hão de lhes impor o estado pacífico, assim como outrora as próprias condições de sua existência os punham e os mantinham no estado de guerra”.
Mas essa nova ciência, que inspirado no grande médico e veritólogo, Dr. Pinheiro Guedes, denominarei CRIPTOLOGIA, não é assunto ainda para estas páginas, pois as mesmas estão reservadas, apenas, para os esclarecimentos relativos à A Busca da Sabedoria (Verdade).
04- DEFINIÇÃO, CLASSIFICAÇÃO E MÉTODO DA FILOSOFIA
Justificada dessa maneira a Filosofia, podemos agora lhe dar esta definição: a Filosofia era a ciência das causas primeiras, para resolver os problemas do segredo da vida e do enigma do universo.
A Filosofia era ciência porque nos proporcionou o conhecimento das coisas, dos fatos e dos fenômenos em si mesmos, em sua natureza e nas suas relações entre si e com tudo que os cercava: o meio e o ambiente. Esse ambiente só se obtinha pelo estudo metódico, observação atenta e análise minuciosa. Era, portanto, essa ciência, fruto da nossa inteligência, resultado do nosso trabalho; ela visou um fim, satisfez uma necessidade do nosso espírito, disse-nos que a coisa revelada não só era assim, como nos apareceu, ou seja, abstrata, mas que teria de ser necessariamente assim. E se distinguiu do saber vulgar e da opinião, que nos diziam que as coisas reveladas eram de uma determinada maneira, mas não davam a razão pela qual eram necessariamente assim. Daí porque o saber vulgar e a opinião não eram estáveis e seguros, mesmo quando verdadeiros. A Filosofia, portanto, mesmo quando coincidia com o assim chamado bom senso ou senso comum, que pertencia à opinião ou ao saber vulgar, sendo um ou outro de natureza puramente material, deles formal e essencialmente se diferenciava, pelo motivo indicado acima, ou seja, pela sua certeza absoluta. E, para a obtenção dessa certeza absoluta, utilizou métodos, processos e aparelhos próprios e adequados à observação e análise das coisas, dos fatos e dos fenômenos que foram objeto do seu estudo.
A Filosofia era ciência pelas causas primeiras porque era metafísica, quer dizer, transcendia a experiência, ou físico, que é a causa segunda, e não parou até esgotar o interrogativo causal e resolver plenamente os problemas do segredo da vida e do enigma do universo. Era ela, portanto, a ciência da essência profunda das coisas, dos fatos e dos fenômenos, ou seja, das causas e dos efeitos; do todo e não das partes, precisamente porque as causas primeiras, como tais, explicavam o Todo. Assim, se distinguiu de todo saber científico que não atingia as causas primeiras, mas se restringia às causas segundas, isto é, se distinguia de toda ciência natural particular.
A Filosofia era a ciência pelas causas primeiras para resolver os problemas do segredo da vida e do enigma do universo. Isto quer dizer que a solução dos problemas da vida que permitisse ao homem viver e se orientar livremente em plena paz e harmonia, não era a finalidade da Filosofia, que tal solução era somente possível partindo dos conhecimentos da vida e do Universo, mas que tais conhecimentos eram unicamente possíveis através de uma metafísica.
A Filosofia, se representava a unificação máxima do saber e da realidade, dividia-se ao mesmo tempo em algumas partes fundamentais. Antes de se construir uma metafísica, era necessário demonstrar a capacidade da razão humana para tamanho empreendimento, definida como: GNOSIOLOGIA; e da metafísica decorria necessariamente uma MORAL, indicando ao homem a sua ação e o seu dever, conforme a realidade metafísica e com base na razão.
Como era preconceitocomum que a Filosofia era um saber abstrato, afastado da realidade e da vida, era também opinião vulgar que a metafísica fosse fruto de uma espécie de intuição mística, uma construção pelas ideias inatas, uma dedução lógica dessas e um roupão transcendente que se impunha à realidade. Na verdade, porém, como era insubsistente o primeiro preconceito, e já o vimos, era falsa também a segunda opinião; pois a metafísica se construía começando pela experiência, ou físico, do mesmo modo que a Filosofia era a mais profunda penetração da experiência, ou físico.
05- FILOSOFIA E A VERDADEIRA HISTÓRIA DA FILOSOFIA
A Filosofia era, portanto, uma construção — a mais alta e sólida construção — da razão humana, que partia do terreno firme da experiência, ou físico, para justificá-la. Em abstrato e substancialmente, pôde a Filosofia ser realizada pela sã e eficiente razão humana de determinados indivíduos, que se puseram na primeira linha de frente para resolver os problemas do segredo da vida e do enigma do universo. Entretanto, em concreto e plenamente, o sistema da Filosofia foi realizado aos poucos, através do gradual progresso da humanidade, mediante A Verdadeira História da Filosofia, como acontece a respeito de todos os valores humanos. E um livro da verdadeira história da Filosofia, contém a exposição objetiva, cronológica, metodológica e crítica dos sistemas filosóficos que apareceram ao longo da história do pensamento humano.
A verdadeira história da Filosofia não representa apenas um simples progresso para a humanidade, mesmo que não se possa afirmar que toda transformação seja sempre positiva, embora seja sempre desenvolvimento, desdobramento e atuação. Pois há desenvolvimento tanto do bem quanto do mal, tanto do vício como da virtude, e tanto do erro quanto da verdade. No primeiro caso tem um desenvolvimento para a diminuição do ser, para a estagnação; no segundo caso tem lugar um desenvolvimento para a elevação do ser, para a verdade. Por isso, podemos afirmar “a priori” a progressividade que representa a verdadeira história, pois ela prova a constatação do fato para a elevação do ser, ou seja, da verdade.
Que tenham todos em mente, e isso é de fundamental importância, que no estudo das relações entre a Filosofia e a verdadeira história da Filosofia, há de se abandonar mais um preconceito, que, aliás, é muito parecido com o do progresso, isto é, o preconceito de que a verdadeira história da Filosofia possa ser passiva de alguma mudança básica posterior, como se a verdade não pudesse ser conquistada uma vez e, depois de conquistada, não pudesse permanecer objetivamente imutável.
Evidentemente, a distinção entre o progresso para a elevação do ser, para a verdade e para o desenvolvimento, que pode se realizar, também, para a diminuição do ser e para a estagnação; traz necessariamente consigo a distinção entre o valor teórico e o significado histórico da verdadeira história da Filosofia, uma vez que o dever ser é distinto do ser empírico e do ser ontológico. Quer dizer que o verdadeiro historiador da Filosofia deve reconstruir segura e objetivamente os pensamentos dos filósofos e dos períodos filosóficos, sejam quais sejam esses pensamentos, sem prescindir do seu valor teórico em relação ao valor da verdade. Somente depois desse severo trabalho de pesquisa e de reconstrução, é que será possível passar para a crítica, ou seja, a questão da distinção entre o valor teórico e o significado histórico.
Na reconstrução segura e objetiva de um sistema filosófico da história, portanto, é preciso encarar as ideias em conjunto com os homens que as conceberam, pois o objeto da verdadeira história da Filosofia são precisamente as ideias, que são os elementos teóricos, em perfeita harmonia e integração com os acervos e as intenções morais dos filósofos, que são os elementos que proporcionam a captação ou o surgimento dessas ideias.
Em concreto, porém, como começou a verdadeira história da Filosofia e como se desenvolveu? A respeito do início, rigorosamente falando, devemos dizer que ele teve princípio com o homem, a partir do momento em que ela se manifestou como atividade autônoma.