14- Parte X: A verdadeira história da filosofia – 1a. tentativa

01- JUSTIFICAÇÃO DA FILOSOFIA

Entre as ciências que existiam até hoje, a Filosofia se apresentava como sendo a mais abstrata, a mais afastada dos interesses vitais e das necessidades humanas. No entanto, este preconceito era devido ao próprio fato de se ignorar a Filosofia e o homem. Na realidade, a Filosofia era inegavelmente a disciplina mais necessária e a mais viva entre quantas se estudavam na escola e se afirmavam na verdadeira cultura.

Nas escolas superiores se estuda a História da Civilização, em cujo âmbito não se pode dar aos acontecimentos humanos unidade verdadeira e satisfatória explicação. Quem é o homem na história, ator ou comparsa, servo ou senhor? Qual a origem e o fim da humanidade? São indagações que escapam à História. O caminho da História é progresso, regresso, retorno eterno, ou é repetição cíclica? Por que existe o mal, e muito mal, de que estão cheias as crônicas da humanidade? Todos estes são problemas que surgem da História, mas a História não os resolveu.

Nas escolas superiores se estudam também as ciências matemáticas, físicas e naturais. E aqui também, outros e mais graves problemas assomam. Que é, no fundo, a realidade física, cujos aspectos exteriores e múltiplos as ciências estudam? Que é a matéria, a força, a vida, a sensibilidade, o espaço e o tempo? Qual a origem do mundo e dos seres vivos? Outros tantos problemas suscitados pelas ciências, mas que elas também não resolveram.

Ainda nas escolas superiores, têm partes preponderantes a literatura e a poesia que são artes. Por certo que essas artes são, espiritualmente, superiores à História e às ciências, pela visão profunda e universal do mundo e da vida, das coisas e dos homens, que elas proporcionam, vindo daí o famoso e justo conceito da eternidade das obras de arte. No entanto, a intuição do artista é sempre fantástica, sentimental e sensível, desprovida, portanto, de raciocínio lógico e realista. Por isso, embora proporcionando essa visão, jamais resolveram os problemas da humanidade.

Por fim, entre as matérias de ensino nas escolas superiores, tem lugar de destaque também a religião, o cristianismo religioso, que, sendo a fé do povo brasileiro, é aprendido e praticado pela maioria, na família e na vida social também. E também a religião, sem dúvida, não resolveu os grandes problemas humanos. Pois em cada homem, e especialmente no homem detentor da verdadeira cultura, consciente de si mesmo, o cristianismo religioso pede uma base racional, pois a fé é racional obséquio. Para crer no cristianismo religioso é preciso, logicamente, que o homem tenha antes a certeza da existência de Deus, da alma, da Revelação e da Igreja.

Pois bem, a Filosofia, e unicamente a Filosofia reuniu as condições de dar uma solução racional a todos estes problemas imprescindíveis da História, das ciências, da arte e da religião.

A realidade toda era, pois, esses problemas que exigiam solução. O homem queria saber o porquê de cada coisa, de cada fato e de cada fenômeno, pelo motivo de que aquela coisa, ou aquele fato, ou aquele fenômeno, não era plenamente claro em si mesmo, mas pedia algo que o tornasse claro. Os porquês que nós podíamos e devíamos propor para explicar as coisas, os fatos e os fenômenos do mundo da experiência, ou seja, do nosso mundo físico, não encontravam resposta satisfatória nesse mundo da experiência, ou físico. Por conseguinte, a fim de que pudéssemos satisfazer a esta exigência racional, para tornarmos claro o mundo da experiência, ou o mundo físico, éramos obrigados a transcender a este mesmo mundo. Éramos obrigados a transcendê-lo, em virtude dos próprios princípios de causa e efeito que tínhamos aplicado ao mundo da experiência, ou o mundo físico, para compreendê-lo. E nos contradiríamos se tivéssemos restringido ao âmbito da experiência, ou físico, esta exigência de clareza.

Este transcender ao mundo da experiência, ou mundo físico, para explicar e entender esse mesmo mundo da experiência, ou esse mesmo mundo físico, é o que nós chamávamos de FILOSOFIA, mais precisamente metafísica, isto é, a ciência que transpunha o mundo da experiência, ou o mundo físico. A experiência, ou o físico, era relativo, contingente, ou seja, passivo de ser ou não, variado e variável; e pedia, necessariamente, um absoluto, um verdadeiro, uma unidade e um imutável que a justificasse. Fosse qual fosse o modo de conceber, qualificar este absoluto, toda a Filosofia aí deveria necessariamente chegar. Isto quer dizer, que toda Filosofia haveria de ser metafísica.

Finalmente, a vida era um grave problema por resolver. Tanto mais quando se pensava, por exemplo, no mal, no pecado, no sofrimento e na morte. Não apenas e não tanto o problema empírico da vida econômica, da profissão, da família, etc., mas, sobretudo, o problema da vida em geral, de cuja solução dependia a dos primeiros problemas. O homem vivia e sentia, como o animal; mas, além disso, pensava e queria, o que o animal não fazia. Ele não possuía a inocência do animal, que podia se abandonar à sensibilidade e ao instinto para se orientar na vida; mas, primeiro, deveria conhecer bem o que ele era, e, logo, conhecer o mundo e a realidade de que fazia parte, e depois viver e se orientar livremente, em conformidade com este conhecimento profundo. Poderia o homem se desinteressar de demonstrar a Filosofia considerada como ciência que resolveria o problema da realidade; no entanto, não poderia ele se desinteressar praticamente da Filosofia, considerada como ciência que resolveria ou solucionaria o problema da vida, porquanto, se podia deixar de especular, não podia deixar de viver como homem, racional e livremente. Quem ignorava ou recusava tudo isto, não deixava de filosofar, mas, ciente ou não, filosofava igualmente. A sua filosofia, porém, era vulgar, acrítica e irracional.

A Filosofia era, portanto, uma disciplina de que não se podia prescindir. Era a mais alta, a mais necessária das ciências. É precisamente por este motivo que custou os maiores esforços da humanidade inteira. A Filosofia se foi construindo e chegando ao seu final, através de uma dramática história.

Neste livro, depois de serem postos concretamente os problemas da Filosofia, serão esclarecidas as grandes soluções, que, sucessivamente, lhe foram dadas. Isto faremos, não porque achemos que a Filosofia se identifique com a sua história, onde, ao lado da verdade, se encontra também o erro, mas para que mais fácil, gradual e vivamente possamos assimilar o grande organismo que ela foi.

02- DEFINIÇÃO, CLASSIFICAÇÃO E MÉTODO DA FILOSOFIA

Justificada desta maneira a Filosofia, podemos agora lhe dar esta definição: a Filosofia era a ciência das causas primeiras, para resolver os problemas da vida.

A Filosofia era ciência, porque nos proporcionou o conhecimento das coisas pelas causas e pelos efeitos, a saber: como ciência nos disse que a coisa revelada não só era assim como nos apareceu, mas que teria de ser necessariamente assim. E se distinguiu do saber vulgar e da opinião, que nos diziam que as coisas reveladas eram de uma determinada maneira, mas não davam a razão pela qual eram necessariamente assim. Daí porque o saber vulgar e a opinião, não eram estáveis e seguros, mesmo quando verdadeiros. A Filosofia, portanto, mesmo quando coincidia materialmente com o assim chamado bom senso, ou senso comum, que pertencia à opinião, dele formal e essencialmente se diferenciava, pelo motivo indicado acima: pela sua certeza absoluta.

A Filosofia era ciência pelas causas primeiras, porque era metafísica, quer dizer, transcendia à experiência, ou ao físico, e não parou até esgotar o interrogativo causal e resolver plenamente o enigma do Universo. Era ela, portanto, a ciência profunda das coisas, dos fatos e dos fenômenos, ou seja, das causas e não dos efeitos; do todo e não das partes; precisamente porque as causas primeiras, como tais, explicavam o todo. Assim se distinguiu de todo saber científico que não atingia as causas primeiras, mas se restringia às causas segundas, isto é, se distinguiu de toda ciência natural particular.

A Filosofia era a ciência pelas causas primeiras, para resolver os problemas da vida. Isto quer dizer, que a solução dos problemas da vida era a finalidade última da Filosofia, mas tal solução era unicamente possível através da metafísica. A Filosofia era sumamente humana e prática; mas, ao mesmo tempo, sumamente especulativa e teórica. O problema da vida não tinha solução, a não ser através de um sistema de realidade.

A Filosofia se representava a unificação máxima do saber e da realidade, dividia-se, ao mesmo tempo, em algumas partes fundamentais. Antes de construir uma metafísica, era necessário demonstrar a capacidade da razão humana para tamanho desempenho, definida como GNOSIOLOGIA; e da metafísica decorria, necessariamente, uma moral indicando ao homem a sua ação e o seu dever, conforme à realidade e à razão.

Como era preconceito comum que a Filosofia era um saber abstrato, afastado da realidade e da vida, era também opinião vulgar que a metafísica fosse fruto de uma espécie de intuição mística, uma construção pelas ideias inatas, uma dedução lógica dessa e um roupão transcendente que se impunha à realidade. Na verdade, porém, como era insubsistente o primeiro preconceito, como já o vimos; era falsa também a segunda opinião. Pois, a metafísica construía-se começando pela experiência, ou o físico, do mesmo modo que a Filosofia era a mais profunda penetração da experiência, ou físico. Ela, em seu fundamento e em seu ponto de partida, era indutiva, ou sugestiva, como as demais ciências e como todo saber humano em geral, ainda mesmo de modo diverso e com diferentes pontos de chegada. E, por certo, era dedutiva, ou conclusiva por dedução, em seu desenvolvimento. Mas são dedutivas todas as ciências em sua sistematização.