℗ 0190

Eu procuro desprender o máximo esforço possível para cuidar a contento da minha humanidade, procurando sempre desvendar os segredos da vida e os enigmas do Universo, a fim de esclarecê-la acerca da verdadeira espiritualidade, sempre pensando nos meus ideais a serem fixados na face da Terra. Mas o engraçado de tudo isso é que enquanto eu me esforço para cuidar de bilhões e bilhões de espíritos, tenho somente a minha amada esposa para cuidar de mim, e ela realiza a sua tarefa muito bem.

Ela tem a plena consciência de que a sua presença na minha vida é de fundamental importância para as minhas realizações idealistas, mas eu não consigo largar o meu jeito moleque cearense de ser, por isso eu adoro provocá-la, sempre tentando inverter os papéis, como se fosse ela que precisasse de mim. Mas eu faço isso com a intenção de realçar o seu próprio valor, pois sempre quando a provoco neste sentido, ele rebate logo em seguida, dizendo que é justamente o contrário. Então eu me faço de ofendido, viro as costas e saio, com um largo sorriso estampado na face, enquanto ela fica um tanto revoltada, mas conformada, já que é consciente da verdadeira situação.

Acontece que ela é toda perceptiva, e bem menos compreensiva, por isso ela não sabe ler nas entrelinhas, não consegue interpretar as minhas palavras, e nem sequer consegue distinguir o meu tom de voz, que é todo voltado para a prosa moleque. Ela gosta de trocar sempre o pronome pessoal oblíquo da 2ª pessoa do singular ti, que se usa acompanhado de preposição, inclusive no caso em que se emprega contigo, e não com ti, pelo pronome pessoal da 2ª pessoa do singular tu, que indica a pessoa com quem se fala. Assim, ao invés de dizer “Eu nada tenho contra ti”, ela diz “Eu nada tenho contra tu”, ao invés de dizer “Eu vou contigo”, ela diz “Eu vou com tu”. E eu fico encantado!

Inspirado nela mesma, eu passei a provocá-la me utilizando do seu próprio modo de falar, sempre que a ocasião era oportuna. Assim, na primeira deixa, quando eu intervi em algo que não me lembro, pois que não tinha lá tanta importância, de propósito eu passei uns dois ou três minutos falando que o certo era assim e assim, e logo que terminei eu exclamei para ela:

‒ O que seria de “tu” se não fosse “mim”! 

Logo em seguida, eu lhe dei as costas e saí em direção à escada para ir ao meu quarto, pois é lá que se encontra o meu pequeno birô, a fim de dar continuidade aos meus escritos, mas com um largo sorriso estampado na face. E enquanto eu caminhava lentamente, ela replicou, aumentando o volume da voz à medida em que eu me afastava, o que somente fez com que eu risse cada vez mais, pois ela dizia:

‒ Você não acha mais correto dizer exatamente o contrário do que você disse? Eu é que cuido de você, eu é que faço tudo por você, se não fosse eu você não poderia se dedicar tanto a escrever como você se dedica.

Há poucos dias, estando o nosso orçamento estourado, com ela bastante preocupada, pois é ela quem administra o nosso orçamento, pois eu não quero mais saber de dinheiro, que só me faz perder tempo, eu recebi como presente de aniversário a importância de R$ 500,00. Era pequena a quantia, mas foi de uma grande ajuda. E logo eu comecei a brincar, dizendo que ela iria ficar apenas com R$ 50,00, pois o resto eu iria gastar na farra. Sabendo que eu praticamente não saio de casa, obviamente que ela percebeu que era brincadeira, pois que o dinheiro iria ficar todo com ela. E foi aí que eu realmente provoquei, dizendo:

‒ Tá vendo! Não se preocupe, minha filha, há mais de 25 anos que eu cuido de você, nunca deixei que lhe faltasse nada, e nunca vou deixar.

Ela ficou calada. No que eu aproveitei para a provocação final, exclamando:

‒ O que seria de “tu” se não fosse “mim”!

Ela ensaiou uma certa zanga, e, como que indagando, disse:

‒ Agora aprendeu isso, é?

Aí eu ri prá valer.

Eu sofro. Eu dou um duro danado. Mas me divirto.