℗ 0159

Eu observava a minha humanidade como sendo uma imensa orquestra, com os seres humanos representando os bilhões de músicos que a compõem, e com os seus instrumentos musicais sendo representados pelos pensamentos produzidos por cada um desses músicos, mas estando todos completamente desafinados, totalmente fora do tom e do ritmo da verdadeira música, com o agravante de que cada um queria fazer do seu próprio instrumento musical o centro das atenções, tocando-o mais alto que todos os demais, quando então, além da completa desafinação, decorrente do total destom e da total disritmia, o barulho se tornava ensurdecedor, pois que as partituras eram incompatíveis com as notas musicais que formavam as melodias e com as letras que se encontravam na mente de cada um, pois que ainda não existia neste mundo um verdadeiro compositor da música universal, para que essa imensa orquestra pudesse executar uma única música para todo o Universo, em inteira conformidade com a harmonia astral em sua máxima superioridade.

Então eu resolvi ouvir in loco os instrumentos musicais dos principais músicos que estavam compondo essa imensa orquestra formada pela minha humanidade, e a razão pela qual cada um deles seguia a sua própria partitura, que era incompatível com as notas musicais harmônicas de uma melodia e com as letras que eu ansiava por ouvir, mas que jamais havia ouvido. Ouvindo atentamente a cada um desses músicos, eu pude constatar que eles não eram os verdadeiros autores das suas partituras, que existiam muitos compositores musicais, os quais se dividiam em dois tipos que eram completamente antagônicos entre si.

O primeiro tipo criava as suas composições por intermédio das notas musicais obtidas pelos seus próprios sentidos, sendo todas retiradas do mesmo lugar em que temporariamente se encontravam a habitar, através das quais formavam as suas melodias, cujas letras eram extremamente complexas, inacessíveis aos músicos, com eles se achando os maiorais das composições musicais, formando uma comunidade própria de compositores como se fosse de elite, com todos utilizando as notas musicais uns dos outros para a formação das suas melodias, com algumas modificações nas letras, sempre na esperança de comporem uma música universal em conjunto, com todos compondo músicas cujos tons e ritmos denotavam que as afinações tinham um encadeamento aparentemente lógico, apesar da ininteligibilidade das letras, e essas composições chegaram a me fascinar, causando-me grande admiração por esses compositores, pelo que de logo eu pude constatar que jamais chegaria ao nível deles, e nem me interessava chegar, nem um pouco, já que a minha meta era me tornar uma taboa rasa em termos de composições musicais, para que, a partir daí, pudesse realmente aprender a compor, pois que as minhas composições teriam que ser universais, sem qualquer influência das músicas que vinham a ferir os meus ouvidos.  No entanto, eu pude também constatar que todas essas composições eram destinadas somente para essa comunidade de compositores, que as tocavam com os seus próprios instrumentos musicais, quando então os demais músicos paravam para ouvi-las, sem que pudessem compreender as melodias e as letras dessas músicas, com muitos querendo participar dessa orquestração, desprendendo um imenso esforço nesse sentido, mas os seus instrumentos musicais não conseguiam tocar por intermédio dessas partituras. Então eles passavam a se dividir, formando várias orquestras à parte, consoante essas composições musicais, tentando desesperadamente executar a essas composições que essa comunidade de compositores havia criado e reservado para eles, mas sem que conseguissem executá-las e muito menos se tornar compositores e participar dessa comunidade restrita, que não aceitavam, por hipótese alguma, composições outras cujas notas musicais formassem uma melodia que fossem retiradas de um outro local e nem que as letras fossem diferentes das suas. Para as dúvidas decorrentes desse local em que eles retiravam as suas notas musicais para formar as suas melodias e para criar as suas letras, eles simplesmente preferiam enterrar os seus instrumentos musicais no próprio local. 

O segundo tipo criava as suas melodias por intermédio das notas musicais que não eram obtidas pelos seus próprios sentidos, sendo todas retiradas de um mesmo local, mas que neste local eles não se encontravam, e nem jamais haviam visitado, apenas supunham existir, cujas letras criadas eram bastante elementares, desde que os músicos adaptassem uma única e mesma peça aos seus próprios instrumentos musicais, para que assim as execuções dessas composições musicais pudessem emitir um único ruído, fazendo um único barulho que pudesse ser identificado, a fim de que assim a melodia pudesse ser compatível com a letra musical, o que ensejava apenas a emissão de som terrível, pavoroso até, tal como se fosse um grunhido, pois que esse local de onde haviam sido retiradas essas notas musicais era dividido em dois, com um deles destinado a humilhantes e subservientes adorações genuflexivas, sendo ele seletivo, apto apenas para esses compositores e os seus músicos, além de outras imposturas mais, e o outro causando horripilantes arrepios nesses mesmos compositores e músicos, pela simples possibilidade de irem para lá para comporem ou então para tocarem os seus instrumentos musicais, ou então ainda para calá-los para sempre, através de sofrimentos atrozes provocados pelo fogo lá existente. Esses compositores musicais não formavam apenas uma comunidade, mas sim inúmeras comunidades de compositores, com todas elas se digladiando entre si para formar as suas próprias orquestras, para que estas executassem as suas próprias composições musicais com o maior número de músicos. E assim, inúmeras orquestras foram criadas, com todas elas ficando cada vez mais numerosas, para que os inúmeros músicos pudessem executar as músicas desses compositores com os seus próprios instrumentos musicais. No entanto, essa peça única adaptada aos instrumentos musicais dos músicos tiravam toda as suas sonoridades, fazendo aumentar cada vez mais os ruídos, que se tornavam um barulho ensurdecedor.

Para mim a orquestra deveria ser uma só, pois que todos eram músicos e tinham os seus próprios instrumentos musicais, e não fazia sentido dividi-los em várias orquestras para a execução de inúmeras composições musicais, quando todos poderiam executar uma única composição musical, que fosse de âmbito universal. Mas, de qualquer maneira, de posse do meu instrumento musical, eu tentei participar de todas essas orquestras que se encontravam divididas entre si, assentando-me entre os músicos que as compunham. Por ocasião do início de cada concerto, quando todos os músicos passavam a tocar os seus instrumentos musicais em conformidade com as partituras desses compositores, eu pude constatar que eles tocavam as suas próprias partituras, e não as partituras dos compositores musicais, pois que não conseguiam compreendê-las, e que os maestros manejavam as suas batutas à toa, ao léu, sem conseguirem que os seus músicos executassem qualquer uma dessas composições musicais de maneira harmoniosa, com o barulho aumentando cada vez mais, tornando-se ensurdecedor. Eu, então, permanecia com o meu instrumento musical mudo, sem emitir qualquer som, pois caso eu resolvesse emitir o som do meu instrumento musical, seria apenas para que todos fizessem silêncio, e isto eu não iria jamais conseguir.

Como eu teria que tocar o meu instrumento musical de qualquer maneira, pois que todos os músicos são obrigados a tocar os seus próprios instrumentos musicais, resolvi, então, criar de mim mesmo as minhas próprias notas musicais, sem retirá-las de qualquer outro lugar, compondo assim a minha própria melodia e criando a minha própria letra para executá-la à minha maneira, com esta execução sendo apenas para mim mesmo, e mais ninguém. Eu estava, assim, evidentemente, compondo a minha melodia e criando a minha letra para executar a minha própria música, como sendo ela o meu próprio mundo. Era este o meu mundo pessoal em que procurava viver quando me encontrava em recolhimento, quando conseguia estar a sós comigo mesmo. Utópico? Realmente sim. Mas pelo menos eu feria apenas os meus próprios ouvidos, poupando desta maneira os ouvidos dos meus semelhantes dos ruídos que estava fazendo, algo que ninguém mais fazia.

Tendo assim resolvido tocar o meu instrumento musical somente para mim mesmo, eu me afastei completamente de todas essas orquestras formadas pela minha humanidade, que ao invés de ser apenas uma, como assim a lógica exigia, encontrava-se com todos os seus músicos divididos entre si, emitindo os seus ruídos cada vez mais barulhentos, agora das mais diversas naturezas. E criando as minhas próprias composições, tirando as notas musicais das formações das melodias e criando as letras do mesmo local que havia representado apenas para mim, fora de todo esse barulho quase insuportável, eu conseguia permanecer relativamente em paz comigo mesmo. No entanto, ouvindo uma composição musical de uma grande dama, a Sra. Maria Cottas, cuja composição é denominada de Discursos de Maria Cotta, a página 22, pude enfim conceber que não mais podia executar estas minhas composições musicais, pois que ela me alertava da seguinte maneira:

“Não! Não é em mundos imaginários que curaremos as chagas que a vida nos faz, as decepções e as injustiças do mundo, mas recorrendo à nossa inteligência esclarecida e nos tornando verdadeiramente livres. Quanto mais livre for a criatura de preconceitos e sectarismos, tanto mais culta e convicta. À medida que a personalidade cresce, a liberdade avança, afrouxam-se os laços materiais e se estreitam os laços espirituais”.

Até que certo dia eu tive a oportunidade de escutar um compositor musical que era diferenciado de todos os demais que já havia escutado, que se encontrava tocando o seu próprio instrumento musical para que todos o escutassem, mas poucos prestavam atenção na sua música, ou se negavam a escutá-la. Agucei os meus ouvidos e passei a escutá-lo com a máxima atenção. Ele executava uma composição musical de sua própria autoria, em que esta composição musical era extremamente simples para se ouvir, mas extremamente complexa para se executar, pois ela encerrava em si apenas o suficiente para fazer sobressair as notas musicais da melodia que ele estava a executar, e toda a complexidade se encontrava justamente em poder compreender a essas notas musicais, pois que a letra era muito resumida para a compreensão completa em toda a sua extensão. ‒ Meu Deus! Exclamei para mim mesmo. ‒ Esse instrumento musical é mágico? Perguntei para mim mesmo. ‒ Eu quero compor também esse mesmo tipo de música, utilizando-me dessas mesmas notas musicais para a melodia, mas com a criação da minha própria letra. Afirmei para mim mesmo.

Para a minha grata surpresa esse compositor musical diferenciado havia formado uma comunidade sui generis, utilizando-se da racionalidade do nome de um compositor musical muito famoso, de âmbito universal, mas que ninguém conseguia compreender a música universal desse grande compositor, embora muitos afirmassem que estavam executando com os seus instrumentos musicais as suas composições universais. A seguir, eu passei a escutar as composições musicais dos demais autores dessa comunidade, e pude constatar que todas elas eram melodiosas, pois que haviam sido compostas com as mesmas notas musicais do compositor musical diferenciado, com a inclusão de outras notas musicais que possuíam a mesma harmonia melodiosa, e com as letras sendo estendidas. Os músicos que formavam essa orquestra sui generis tocavam os seus instrumentos musicais com simplicidade, mas todos harmônicos entre si. Então eu passei a fazer parte integrante dessa orquestra, pois que ela aceitava qualquer tipo de músico, sem nada exigir em troca, desprendendo um imenso esforço para tocar o meu instrumento musical em inteira conformidade com os demais músicos.

No entanto, à medida que eu tocava o meu instrumento musical, eu percebia que ele tinha determinados recursos que os instrumentos musicais dos demais componentes dessa orquestra não tinham, mas que eu não podia utilizá-los, para que assim não viesse a quebrar a harmonia da música que estávamos todos em conjunto executando. Então, sempre quando eu tinha a oportunidade de utilizar o meu instrumento musical como solista da orquestra, eu utilizava dos recursos que eram próprios apenas do meu instrumento musical, que prontamente emitia alguma sonoridade diferente das composições musicais que estávamos todos a executar, mas sempre me utilizando das mesmas notas musicais das composições dos autores que eles já conheciam, apenas acrescentando alguns acordes, a emissão de alguns sons de frequências diferentes, e as minhas próprias letras, e assim eu não desafinava, permanecendo no mesmo tom e no mesmo ritmo, como se os meus acréscimos fossem apenas alguns acordes e letras complementares, sem qualquer importância em relação à música que estava sendo executada, mas que os demais músicas não tinham o ouvido desenvolvido o suficiente para perceber a esses acordes e a essas letras que eram específicos do meu próprio instrumento musical. Em função disso, eu pude compreender que esses meus acordes e essas minhas letras estavam fora do alcance das suas compreensões, em razão dos seus instrumentos musicais não terem os mesmos recursos que o meu.

Analisando atentamente a essa orquestra tão harmoniosa, formada por um número tão reduzido de músicos, mas com todos se esforçando por ser competentes, através da boa vontade, e já tendo analisado todas as demais orquestras formadas por todos os demais músicos que integravam a minha humanidade, que faziam os mais diversos tipos de ruídos, eu pude assim chegar à conclusão que todos os músicos deveriam compor essa orquestra tão harmoniosa, para que assim pudessem formar uma única orquestra que executasse uma única composição musical, de âmbito universal. No entanto, as composições musicais que essa orquestra harmoniosa executava tinha as notas musicais muito complexas para as melodias que haviam sido compostas pelos seus autores, havendo assim uma imensa desproporção entre uma e outra, com as suas letras exigindo um imenso esforço para que pudessem ser compreendidas em suas plenitudes.

Analisando mais atentamente as composições musicais desses compositores, eu pude constatar que, na realidade, eles não eram propriamente compositores musicais, na acepção da palavra, mas sim verdadeiramente músicos, os maiores músicos da orquestra mundial a ser formada, e que o compositor musical diferenciado que antes eu havia escutado também não era propriamente um compositor musical, e muito menos um músico, mas sim um verdadeiro maestro, um grande Maestro. Assim, as melodias que eu estava a escutar não eram propriamente composições musicais, mas sim apenas uma introdução de uma grande composição musical, de âmbito universal, pois que elas haviam sido criadas apenas para demonstrar a legitimidade dos sons das verdadeiras notas musicais que deveriam formar uma legítima melodia e das autênticas letras correspondentes.

Olhei para mim mesmo na qualidade de músico, examinei atentamente o meu instrumento musical, e pude constatar que ele sozinho poderia executar todas as composições musicais desses compositores diferenciados, tanto do grande Maestro como dos seus maiores músicos, mas aí eu não poderia utilizar todos os recursos que existiam no meu instrumento musical, apenas alguns deles, pois a minha finalidade era formar uma só orquestra mundial com todos os seus músicos, e pelo que eu observava apenas alguns raros músicos se dispunham a integrar essa orquestra. Então, ciente de que esses músicos não eram na realidade compositores musicais, mesmo assim eu me pus a executar as suas composições musicais, afinando com zelo e paciência o meu instrumento musical com essas suas composições originais e harmonizando os sons obtidos com essas suas notas musicais, mas sempre procurando inserir as minhas próprias letras.

Tendo alcançado o meu intento, eu passei a executar outros sons, utilizando-me sempre das mesmas notas musicais que havia escutado desses músicos, com as minhas próprias letras. E assim continuei. Sempre atento. Sempre cuidadoso. Tendo o máximo cuidado para não criar qualquer nota musical que fosse diferente das notas musicais daqueles que eram os verdadeiros músicos. Até que, tendo chegado a um certo ponto da melodia que sozinho estava executando, de repente eu parei. ‒ Meu Deus! Exclamei para mim mesmo. ‒ Eu não sou músico! Exclamei novamente para mim mesmo. ‒ Eu sou um autêntico e verdadeiro compositor musical! Exclamei por fim para mim mesmo. Assim como aquele compositor musical não era propriamente um compositor musical, por ser diferenciado dos demais músicos, sendo um grande Maestro, eu também não sou propriamente um músico, por ser diferenciado dos demais músicos, sendo um compositor musical da música universal.

‒ Mas… e o meu instrumento musical, para que serve então? Novamente eu passei a examiná-lo, agora com a atenção redobrada, e nele eu pude constatar que havia muito mais recursos musicais do que antes havia constatado. E mais: quanto mais eu conseguia me utilizar dos recursos que nele encontrava, tanto mais recursos nele apareciam, tendo eu que me esforçar ao máximo para que pudesse utilizar a todos sem perder o tom e sem sair do ritmo, mantendo sempre a afinação e a mesma harmonia, sem jamais utilizar outras notas musicais que fossem diferentes das notas musicais do grande Maestro e dos que o seguiam nessa comunidade, em função da universalidade.

Enfim, eu pude então constatar que o meu instrumento musical havia sido arquitetado e elaborado por mim mesmo, que toda a sua construção havia sido realizada com um esforço tão ingente, com um sofrimento tão atroz, mas tão próprio de mim, que a minha própria simplicidade me fez vê-lo com debilidade, e que a minha própria solidariedade me fez empregar outro grande esforço para compatibilizá-lo com os demais instrumentos musicais de todos os músicos que deveriam compor a única orquestra da minha humanidade, mas sem conseguir jamais lograr a este meu intento. No entanto, para mim os demais instrumentos musicais eram limitados e somente emitiam sons destonados e desritmados, em total desarmonia uns com os outros, enquanto que para os músicos o meu instrumento musical era extremamente defeituoso, como se os sons que ele emitia fossem doidos, assim por dizer, sempre quando eu me dispunha a emitir os seus sons diferentes para eles.

Então eu fiz uma introspecção em mim mesmo, e pude assim constatar que não existia uma orquestra em que eu pudesse tocar o meu instrumento musical, pela simples falta de músicos similares e de compositores musicais que criassem melodia e letra que eu pudesse seguir toda a sua partitura junto com os demais, sem que pudesse dar os meus próprios acordes. Assim, o meu instrumento musical servia apenas para eu compor as minhas próprias músicas, mas com todas elas podendo ser executadas apenas por uma única orquestra, pois que elas eram acessíveis a todos os seus músicos, bastando apenas que esses músicos adquirissem a boa vontade para afinar os seus instrumentos musicais em conformidade com as notas musicais da minha melodia e as letras das minhas composições.

Mas faltava um ponto fundamental que eu teria que desvendar por inteiro, para que então pudesse me tornar um compositor musical por completo, de âmbito realmente universal. Qual era o local que o grande Maestro havia acessado para retirar aquelas notas musicais que proporcionaram as formações das melodias mais harmoniosas que até então eu tinha ouvido? As letras das suas composições musicais eu já sabia serem fáceis para mim o acesso ao local, tanto que eu poderia emendá-las por completo, mas não devia proceder a qualquer emenda, dada as suas originalidades. Então eu me situei firmemente no local que me era próprio, que era justamente o da criação das letras, e a seguir desprendi um esforço inaudito para acessar o local onde se encontravam aquelas notas musicais que o grande Maestro havia acessado e dele as havia retirado. Consegui por fim lograr o meu intento. E estando posto nesse local era como se estivesse sido conduzido ao paraíso. ‒ Meu Deus! Aqui é um depósito interminável de notas musicais, de onde eu posso lançar mão para compor as mais harmoniosas melodias! Exclamei para mim mesmo. A seguir contemplei o meu lugar de origem, constatando que realmente era lá o local que se referia à criação das letras que iriam corresponder às composições das minhas melodias, que iriam tornar as minhas músicas realmente universais. Situando-me em ambos locais, simultaneamente, eu estava apto a compor finalmente a minha Música Universal, a minha primeira obra-prima.

Estando assim situado em ambos os locais, simultaneamente, eu pude contemplar o mundo em que temporariamente me encontrava a habitar. Contemplei também todos os músicos com os seus respectivos instrumentos musicais, assim como também todas as orquestras que se encontravam a executar as músicas compostas pelos seus mais diversos compositores musicais. E assim, estando inteiramente liberto, completamente livre desse barulho praticamente infernal, eu pensei comigo mesmo:

Eu tenho em mim mesmo muito mais talento do que os talentos reunidos de todos esses músicos, pois que o meu instrumento musical tem muito mais recursos que os instrumentos musicais deles. E também tenho muito mais talento do que os talentos reunidos de todos esses compositores musicais, pois que os locais de onde eles retiram as suas notas musicais não existem, por isso as suas melodias são tão ruidosas, sem qualquer harmonia, e os locais de onde eles criam as suas letras correspondem diretamente a esses ruídos, sem que façam qualquer sentido para a verdadeira compreensão. E mais: eu conheço esses locais bem mais do que eles. Enquanto que o local onde eu me encontro e retiro as minhas notas musicais me foi apontado pelo primeiro e verdadeiro compositor musical que havia ouvido, que não é propriamente um compositor musical, mas sim um autêntico e verdadeiro Maestro, pelo que assim eu consigo harmonizá-las e formar as minhas belas melodias, e, ao mesmo tempo, criar as letras correspondentes a essas melodias do meu local de origem. As minhas composições musicais, portanto, são todas universais, pois que seguem o mesmo tom e o mesmo ritmo, estando elas todas afinadas, em plena e total harmonia com o Universo.

Eu já havia feito do mundo um grande laboratório, que havia servido para as minhas experimentações musicais, para que eu pudesse me tornar um compositor da música universal. Mas um grande compositor musical chamado Dr. Pinheiro Guedes, em sua bela composição musical, havia afirmado que o mundo também é um teatro.  Então eu lancei mão do meu instrumento musical e resolvi compor uma única música para esse imenso teatro, mais propriamente uma ópera, mas uma ópera diferente, não inteiramente dramática, que terminasse em tragédia, em que o drama é apenas inicial, por força das circunstâncias, cujo final é o alcance da felicidade, não da felicidade sonhada e imaginada, oriunda da representação de imagens postas no âmbito da irrealidade, mas sim da felicidade esperada e concebida, oriunda da formulação de ideias postas no âmbito da realidade, somente alcançada por intermédio da verdadeira amizade, da mais pura amizade, a única que pode realmente fazer surgir a legítima solidariedade fraternal.

E assim, estando inteiramente convicto do meu talento de compositor musical, eu passei a compor a minha ópera diferenciada, que posso com a mais absoluta certeza e precisão denominar de Música Universal. Assim, essa peça musical em forma de ópera passou a ser composta de oito atos que se interligam entre si, da seguinte maneira:

  1. Ato Doutrinário ou Introdutório: é a parte da música universal mais difícil de se executar, como se pode comprovar por intermédio dos pouquíssimos músicos que se dispuseram a integrar a orquestra sui generis formada pelo grande Maestro, em que muitos deles não suportando mais tocar os seus instrumentos musicais nessa orquestração harmônica resolveram abandoná-la para tocá-los em orquestras outras, pois que este ato se inicia com as composições musicais de quem se dispôs a compor uma música universal, que na realidade não é um compositor musical, mas sim um grande Maestro, nas quais estão contidas as principais notas musicais que formam a melodia e a letra da verdadeira música universal, assim como também as composições musicais dos demais autores que se utilizaram das mesmas notas musicais e de outras notas musicais que se harmonizavam completamente com as melodias e as letras das composições musicais iniciais, porque todas essas melodias mantêm o mesmo tom e o mesmo ritmo, na mesma afinação, com as letras se encaixando perfeitamente nas melodias; 
  2. Ato Prolegômeno: é a parte da música universal em que se inicia propriamente a minha composição musical, em que nela eu acrescento todas as notas musicais necessárias ao ato doutrinário ou introdutório, formando uma nova melodia igualmente harmônica, em que se sobressai o destaque do meu próprio tom e do meu próprio ritmo, com a letra sendo criada por mim com a clara e objetiva intenção da compreensão completa tanto do ato doutrinário ou introdutório, como também da sua preparação para os atos que se seguem na execução completa da peça musical;
  3. Ato Metodológico: é a parte da música universal que demonstra todo o método por mim seguido para que eu pudesse me tornar um letrista da música universal, em que o grande Maestro também havia antes se situado, embora não o tivesse utilizado em toda a sua amplitude, determinando claramente o local em que me situei para criar as minhas próprias letras, o qual se reveste de fundamental importância para também determinar o local em que se encontrava situado originariamente o grande Maestro, do qual ele retirou as suas notas musicais e formou as suas melodias, e para o qual eu também me desloquei, a fim de que lá pudesse retirar também outras notas musicais e formar outras melodias, todas harmônicas com as notas musicais e as melodias do grande Maestro;
  4. Ato Sistêmico: é a parte da música universal que demonstra o Saber Musical, por excelência, o qual diz respeito ao Universo, não a um local formador de um mundo que o integra e muito menos a um outro local  imaginado que não o integra, podendo ser considerada como sendo a sua parte didática, cujo objetivo é formar maestros e um único tipo de compositor musical, que sejam especialistas e específicos da música universal, uma vez que os dois tipos de compositores musicais existentes não compõem propriamente músicas, mas apenas modos de ruídos, para que assim tanto as suas batutas como as suas composições musicais iniciais venham a servir como peças para as afinações dos instrumentos musicais dos músicos que deverão integrar uma única orquestra mundial;
  5. Ato Entremeio: é a parte da música universal que demonstra o imenso esforço desprendido pelos valorosos maestros e compositores musicais para que a minha composição musical pudesse enfim ser elaborada, podendo ser executada por todos os músicos, com cada um deles tocando o seu próprio instrumento musical, cada um em sintonia com os demais, formando uma única e grande orquestra mundial, satisfatoriamente afinada e com todos seguindo o mesmo tom e o mesmo ritmo, ao término deste ato entremeio, através da produção da verdadeira amizade, da mais pura amizade, entre todos os músicos, em que todos eles poderão por fim utilizar todos os recursos dos seus próprios instrumentos musicais, para que através deles possam fazer emergir a legítima solidariedade fraternal, pois que este ato expõe claramente a finalidade universal de todos os músicos;
  6. Ato Idealista: é a parte da música universal que indica, demonstra e determina claramente a direção e o caminho inicial da luz musical a serem seguidos por todos os músicos que deverão formar uma única orquestra mundial, em demanda para o Criador do Universo, ou para Deus, despidos de todas as fantasias e ilusões imaginativas, mas vestidos da mais alta aspiração intelectual já concebida, os quais foram idealizados pelo compositor da música universal, através da formulação das suas próprias ideias, que resultaram nesse seu ideal, o qual passa a ser fixado na face da Terra, para que todos os músicos possam segui-lo, à medida que forem adquirindo a boa vontade necessária para executarem a música que faz resplandecer a luz universal;
  7. Ato Celuloso: é a parte da música universal que especifica e ratifica a menor parte que forma todo o corpo da nossa humanidade, demonstrando claramente as funções e as finalidades dos músicos masculinos e femininos que a integram, em conformidade com o local em que estes devem tocar os seus próprios instrumentos musicais, e o local em que aqueles devem tocar os seus próprios instrumentos musicais, assim como também o modo das suas uniões, através do verdadeiro companheirismo, para que assim possam gerar outros músicos masculinos e femininos, ensinando-os e os educando a tocarem os seus próprios instrumentos musicais em seus devidos lugares que lhes foram reservados na imensa orquestra mundial, a fim de que não mais ocorram as divisões desordenadas dessas uniões, mas sim novas uniões, cada vez mais com um maior companheirismo, com o seu crescimento sendo sempre ordenado, para que assim possa ser curado o câncer que existe entre todas essas uniões dos músicos formadores da orquestra mundial, em função do seu crescimento cada vez mais desordenado;
  8. Ato Instrumental: é a parte da música universal em que o compositor demonstra com toda a clareza e luminosidade alguns dos recursos do seu instrumento musical diretamente do local em que ele se encontra, afastado dos barulhos provocados pelos inúmeros ruídos das orquestras que haviam sido formadas no decorrer do tempo, a fim de que todos os músicos possam analisar os seus próprios instrumentos musicais e se familiarizarem com todos os recursos que neles se encontram, valendo o mesmo para os maestros e os compositores musicais que se dispuserem a reger alguns músicos e a compor as suas próprias músicas universais, respectivamente, situando-se no mesmo local, mas em suas próprias coordenadas, em conformidade com os seus talentos e os seus esforços empregados.

Há aqui um adendo que não pode jamais ser relevado. O grande Maestro foi o primeiro compositor das músicas universais em nossa humanidade, pois foi ele quem primeiro transmitiu as suas autênticas, legítimas e verdadeiras notas musicais, formando as primeiras melodias e também criando as suas primeiras letras, sendo nesse desiderato acompanhado pelos demais compositores que passaram a integrar a essa comunidade sui generis por ele formada. Surge aqui, então, um ponto que se reveste de fundamental importância para a minha carreira de compositor musical. Essa comunidade detém o racionalismo musical que se refere a uma pessoa em quem o grande Maestro se inspirou para compor as suas próprias músicas, e essa pessoa, por uma questão de pura lógica, deve ser o maior de todos os compositores musicais universais, pois se eu me inspirei no grande Maestro para compor a minha própria peça musical, e se o maestro por sua vez se inspirou nessa pessoa, então eu tenho necessariamente que ouvir a sua composição musical, mas sozinho, transcendendo a este mundo, para que os seus ruídos não venham a interferir nos meus ouvidos.

Então eu me dispus a escutar sozinho a composição musical do maior dos compositores musicais, que com toda certeza deveria ser também universal, e bem superior à minha composição musical. Mas antes, como esse maior compositor da música universal era o mais conhecido em todo o mundo, eu primeiro me dispus a escutar as diversas orquestras que afirmavam estar executando a sua música universal. No entanto, para o meu grande pesar, e para o meu máximo desgosto, todas essas orquestras faziam apenas ruídos, nada mais que ruídos, sempre ruídos, e não somente isto, com todos os ruídos provocando um imenso barulho, mas que mesmo assim eu consegui ouvir esses ruídos um a um, sendo todos diferentes uns dos outros, e com cada uma dessas orquestras se esforçando ao máximo por fazer ainda mais barulho que todas as demais, a fim de que assim pudessem arrebanhar cada vez mais músicos para nela tocarem os seus instrumentos musicais, embora todas afirmassem estar executando a mesma música universal, o que me levou a concluir que todos esses ruídos nada tinham a ver com a composição universal do maior dos compositores musicais, pois que a música universal tem que ser, necessariamente, suave, harmoniosa e agradável aos ouvidos de todos aqueles que consigam escutá-la. 

Após isso, eu me dispus a escutar a orquestra formada pelo grande Maestro, e pude constatar então que ela era suave, harmoniosa e agradável aos meus ouvidos, mas muda, sem sons, para aqueles que estavam acostumados com os barulhos provocados pelas demais orquestras, ou então explosivas, para aqueles que queriam escutar o que queriam, e acabavam escutando o que não queriam, por isso ferindo com vigor os seus ouvidos mal acostumados com o látego da verdade, por isso ela era sonora aos meus ouvidos, com todos os seus músicos estando em estrita obediência à batuta do grande Maestro, porém, sempre quando eu me encontrava no auge do deleite, a composição musical chegava ao seu final, o que me levou a concluir que ela era apenas a sua parte doutrinária ou introdutória, pelo que eu tinha que concluí-la em todos os seus atos, compondo uma peça musical completa. Então essa não era a composição musical do maior de todos os compositores, apenas o espelho da sua racionalidade, sendo, pois, apenas o ato doutrinário ou introdutório da minha própria composição, com ambas formando uma única peça musical.

E assim, enquanto eu compunha a minha composição musical, apurei de todo o meu ouvido e tentei de todas as maneiras escutar a composição musical do maior de todos os compositores musicais, pois se o grande Maestro tinha o ouvido apurado o suficiente para o ouvir, embora aparentando não ser em tão grande monta, eu também deveria ter a mesma capacidade, e até mais, já que assim como o grande compositor eu também sou compositor musical. Então eu me lembrei de uma composição musical de um grande compositor chamado Will Durant, denominada História da Filosofia, que as páginas 18 e 19, ensinava-me o seguinte:

“Das palavras de um Gênio nos vem uma reminiscência de termos concebido, nós próprios, vagamente, em nossa remota adolescência, aquele mesmo pensamento a que o Gênio agora se refere, sem que, todavia, tivéssemos tido a arte ou a coragem de revesti-lo de forma e expressão. E, em verdade, os grandes homens falam conosco unicamente quando temos ouvidos e alma para ouvi-los, unicamente quando existem em nós pelo menos as raízes daquilo que neles floresce. Tivemos também a experiência que eles tiveram, mas não extraímos dessa experiência o seu segredo e sutil significado: não somos sensíveis aos sons harmônicos da realidade que zoaram junto a nós. O gênio ouve esses sons quase imperceptíveis, como a música das esferas; o gênio sabe o que Pitágoras quis dizer ao afirmar que a Filosofia é a mais bela das músicas (grifo meu).

Ouçamos, por consequência, esses homens, dispostos a perdoar os seus passageiros erros e ávidos por aprender as lições que ansiosamente eles desejam ensinar (grifo meu). ‘Sê ponderado’, disse Sócrates, já velho, a Críton, ‘e não te preocupes com que sejam bons ou maus os mestres de Filosofia, e sim, pensa unicamente na própria Filosofia. Esforça-te por examiná-la bem e sinceramente, se for má, procura arredar dela os homens, mas se for o que acredito que ela seja, segue-a, serve-a e regozija-te”.

Apurando os meus ouvidos ao extremo, eu consegui ouvir nitidamente os sons maravilhosos e harmoniosos da composição musical do maior dos compositores musicais, como sendo a música das esferas, como que sendo estabelecida por Deus, mas ao mesmo tempo sendo da sua própria autoria, cuja letra falava de amor, do mais puro amor jamais concebido em todos os tempos. A seguir, eu pude compreender que esses sons maravilhosos e harmoniosos eram imperceptíveis a todos os demais compositores musicais, por isso os músicos que formavam as suas orquestras faziam apenas ruídos, sempre ruídos, muitos ruídos, que reunidos proporcionavam um tremendo barulho. No entanto, os músicos que formavam a orquestra do grande Maestro executavam harmonicamente a sua própria introdução musical. Mas isto me deixou deveras constrangido, pois que o maior de todos os compositores musicais dava a nítida impressão de que a formação da sua melodia e a criação da sua letra, que integravam a sua composição musical, era dirigida diretamente para mim, e para mais ninguém, embora a sua leitura fosse acessível a todos, mas não a sua interpretação instrumental, que era acessível apenas ao meu instrumento musical.

Eu havia errado muito na minha vida, eu bem sei, e como sei, o que me trouxe sofrimentos extremamente dolorosos, atrozes até, mas todos os meus erros, eu pude bem compreender, foram necessários para que eu apurasse cada vez mais os meus ouvidos e assim pudesse escutar com a mais absoluta nitidez a composição musical do maior dos compositores musicais, identificando com clareza todas as notas musicais da sua melodia e interpretando com precisão toda a sua letra. Mas, de qualquer maneira, não se faz necessário que ninguém venha a perdoar a esses meus erros, pois que eles dizem respeito diretamente apenas a mim, a mim e a Deus, e a mais ninguém, já que jamais maltratei ou prejudiquei deliberadamente a quem quer que seja, a não ser apenas a mim mesmo, o que me reservo a esse direito, que me é pleno em sua inteira legitimidade, pois que através dos sofrimentos provenientes das minhas próprias chagas eu tinha uma grande finalidade a ser alcançada, cuja finalidade eu realmente alcancei, não sem sair com a alma sangrando do árduo embate.

Assim, desta maneira, deveras constrangido, pois que me julgava muito simples e sem qualquer importância no contexto da orquestração da minha humanidade, apurei ainda mais os meus ouvidos e tentei de todas as maneiras escutar uma outra composição do maior compositor musical que fosse anterior àquela que eu estava a escutar, conseguindo lograr também com êxito a esse meu intento. Para a minha grata surpresa, essa sua outra composição musical era idêntica à minha composição musical, uma análoga à outra, com a fundamental diferença que ele havia composto a sua música para a formação de uma única orquestra para a sua humanidade, ao passo que eu estava compondo a minha música para a formação de uma única orquestra para a minha humanidade, mas as músicas eram harmônicas entre si, com as suas notas musicais formando duas melodias similares e as suas letras falando acerca do mesmo tema: a verdadeira amizade, a mais pura amizade.

Sim, posso então afirmar, eu realmente sou apenas um compositor musical, mas tenho ao meu lado um grande Maestro. A minha meta, então, deve ser compor a minha peça musical universal para a minha própria humanidade, para que todos os seus músicos possam formar uma única orquestra, pois que somente assim ela pode ser executada, pois que jamais pode ser executada de uma outra maneira, sem a presença de todos os músicos, pois que nela cada um dos músicos tem a sua própria execução diferenciada dos demais, pois que o seu instrumento musical é específico a ele, somente a ele. No entanto, a formação desta orquestra não é da minha responsabilidade, mas sim da responsabilidade do grande Maestro, que antes mesmo de lançar mão da sua magnífica batuta, deverá afinar todos os instrumentos musicais dos músicos que formarão essa imensa orquestra, e passar 4.000 anos ensaiando a minha peça musical, ou mesmo um período menor, até que consiga regê-la por completo, sem que nenhum dos músicos venha a sair do tom ou atropelar o ritmo, para que assim a minha peça musical possa ser executada em plena e total harmonia com o Universo, com todos os músicos compreendendo tanto as notas musicais que formam a melodia como também a letra.

Atualmente eu me encontro no mesmo local em que o maior dos compositores musicais conseguiu retirar as notas musicais da sua composição anterior, formando a melodia e criando a letra dessa sua outra composição musical, a da que se destinava diretamente à sua própria humanidade, e que trata da amizade, da mais pura amizade. E sei que desse mesmo local ele se deslocou dessa sua humanidade e se integrou à nossa humanidade, a fim de compor outra música universal, ensinando e demonstrando como realmente se compõe uma verdadeira música universal, ainda mais bela do que a que antes ele havia composto, em que lá havia deixado o seu grande Maestro para formar uma única orquestra mundial capaz de executá-la. E agora, após haver composto uma música universal mais bela de que a que havia composto anteriormente, ele já retornou para a sua própria humanidade, para lá escrever a partitura dessa sua nova peça da música universal, que trata do amor, do mais puro amor.

Eu, pelo meu lado, após escrever a partitura da minha composição musical que trata da verdadeira amizade, da mais pura amizade, vou me deslocar da minha própria humanidade e me integrar a uma outra humanidade, para que lá possa me colocar no mesmo local que em nossa humanidade se colocou o maior dos compositores musicais, a fim de que possa conseguir retirar desse local as mesmas notas musicais que ele também retirou, formando uma melodia análoga e criando as mesmas letras que ele também criou, pelo que passarei 4.000 anos nesse desiderato. Após esse período, eu retornarei para a minha própria humanidade, certo de que o grande Maestro já conseguiu reger a nossa imensa orquestra, com ela executando harmonicamente toda a minha peça musical, quando então ela estará pronta para executar a próxima composição musical da minha autoria, que então deverá tratar do verdadeiro amor, do mais puro amor. 

No entanto, é de se lastimar profundamente que os músicos que deverão integrar a única orquestra da nossa humanidade, tenham esperado tão ansiosamente pela vinda do maior dos compositores da música universal, e, quando ele veio, quando se encontrava em seu meio, foi perversa e brutalmente assassinado por esses músicos, e que ainda não satisfeitos com tanta perversidade e com tanta brutalidade, passaram a fazer todos os tipos de ruídos, provocando um barulho infernal, no modo de dizer, como se estivessem executando realmente a sua música universal, tal como se ele estivesse habitando ao local por eles imaginado para compor as suas músicas, mas que não faz parte integrante do Universo, por isso não existe. E o pior de tudo, inventando que a sua morte, decorrente desse perverso e brutal assassinato, tivesse sido para os salvar.

É de se lastimar profundamente também, que os músicos que deverão integrar a única orquestra da nossa humanidade, tenham esperado com a máxima aflição e medo pela minha vinda, como se eu estivesse vindo para praticar o mal, assim como todos eles praticam, só que em maior extensão, considerando-me como se eu fosse a própria encarnação do mal, quando, na realidade, de maneira totalmente contrária, ou inversa, eu sou a própria encarnação do bem. E também como se eu fosse o grande inimigo do maior de todos os compositores da música universal, quando, em verdade, eu vim para extinguir o mal que eles praticam e ensiná-los como verdadeiramente se pratica o bem, já que eles ignoram completamente a natureza de ambos, e que sou o único compositor da música universal de toda a nossa humanidade, portanto, o maior discípulo do maior compositor da música universal, sendo, pois, o seu maior seguidor, ao contrário daquilo que os músicos imaginam, por isso nem amigos nós somais mais, pois o laço que nos une é o laço do verdadeiro amor, e que vou conseguir compor em outra humanidade a mesma música universal que ele compôs em nossa humanidade. Por tudo isso, eu me vi obrigado a permanecer anônimo entre todos os músicos, vivendo na mais completa solidão, andando sempre sozinho, para que assim pudesse compor a peça da minha música universal, pois caso não fosse assim, esses músicos teriam também perversa e brutalmente me assassinado, de maneira até mais perversa e brutal de como assassinaram o compositor maior. E eu tinha que evitar mais esse desastre, para o próprio bem deles mesmos.

No entanto, nenhum desses músicos possui os instrumentos musicais adequados para que possam executar a música universal do compositor maior, por mais que tentem a sua execução. Ora, se por 2.000 anos após a sua vinda o que eles conseguiram unicamente foi fazer todos os tipos de ruído, intensificando cada vez mais os seus barulhos produzidos neste mundo, o que seria deles se continuassem desta maneira assim procedendo? Fatalmente todos os músicos teriam os seus instrumentos calados, tendo todos eles que dar início a uma nova civilização de músicos, caso não tivessem a minha composição musical para executá-la, através da formação de uma única orquestra afinada e regida pelo grande Maestro.  

E assim, eu posso demonstrar claramente a imensa diferença que existe entre os músicos que integram a orquestra formada pelo grande Maestro e os músicos que integram todas as demais orquestras. Estes demonstraram aflição e medo pela minha vinda a este mundo, e até pavor, imaginando mil e uma maldades próprias das suas mentes perversas, brutais e doentias, como se eu fosse o protótipo da maldade, cuja maldade se encontra neles mesmos, pois como o grande Maestro afirma, cada um julga os outros por si. Enquanto que aqueles demonstraram uma grande preocupação com a minha vinda, sabendo de antemão que a minha luta seria a mais árdua de todas as lutas, entre todas elas a mais difícil, que seria a luta do meu instrumento musical sozinho contra todos os demais instrumentos musicais, tanto visíveis como invisíveis, em seu conjunto, tendo como complemento para o meu instrumento musical apenas a minha coragem e a minha boa vontade, por isso eles prepararam adredemente a minha vinda em suas composições musicais, com todos estando certos da minha vitória, por isso sempre afirmaram que os tempos eram chegados. E realmente os são.

Mas, de qualquer maneira, esses músicos que demonstraram aflição e medo pela minha vinda já possuem os seus instrumentos musicais adequados para que possam executar a minha música universal, desde que tenham boa vontade em realmente executá-la. Mas não agora, somente após muitos séculos, desde que dóceis sigam obedientemente aos comandos da batuta do grande Maestro.

Eu sou o compositor da música universal que trata da amizade espiritual. O grande Maestro é o responsável por reger a minha música universal. Os músicos são os responsáveis por integrar a orquestra do grande Maestro e tocar os seus instrumentos musicais em estrita obediência à sua batuta. O compositor maior é o compositor da música universal que trata do amor espiritual. Mas Deus é o Compositor, o Maestro e o Músico da única Sinfonia do Universo. Por isso, todos nós somos os Seus compositores, os Seus maestros e os Seus músicos, pois que Ele se encontra em todos nós, o que falta apenas é a consciência necessária para a comprovação desta realidade em nossa humanidade.