℗ 0128

Quando eu ainda nem sonhava em frequentar a doutrina do Racionalismo Cristão, sendo totalmente ignorante acerca da vida fora da matéria, logo no início das minhas experiências científicas com drogas, que se deu por ocasião das turbulências do meu primeiro casamento, eu até que ria bastante dessas minhas experiências científicas, não ligando muito para elas. Mas um dia, quando já me encontrava separado, estando morando sozinho em um apartamento próximo uns dois quarteirões de um cruzamento de seis ruas que se entrecortavam entre si, denominado de Seis Bocas, uma encruzilhada famosa de um bairro de Fortaleza, algo inesperado me aconteceu.

De repente, eu comecei a sentir como estivesse sendo alguma vítima de um ataque medonho e violento, como se vários seres invisíveis estivessem me atacando com o objetivo de me destruir por completo, causando-me todos os tipos de males, possíveis e imaginários. Então eu comecei a perscrutar o ambiente, concentrando-me em investigar minuciosamente qualquer manifestação, perquirindo tudo aquilo que estivesse ao meu alcance.

Nessa perscrutação, consegui ouvir alguns gritos femininos, como se esses gritos estivessem carregados de desesperos, os quais eram provenientes da tentativa de impedir a esses ataques medonhos, mas que me vinham como se fossem de muito longe. Como eu me encontrava sozinho no quarto, estando deitado na cama, cheguei a imaginar que tais gritos eram provenientes de algumas mulheres que estavam tentando impedir alguma briga que estava se desenrolando em um restaurante que ficava embaixo do prédio. Levantei-me, olhei da janela para baixo, e não vi confusão alguma.

Como estava bastante drogado, afastei-me da janela, deitei-me novamente na cama, e imediatamente comecei a pensar profundamente sobre a minha vida. Estando envolto em meus próprios pensamentos, logo comecei a indagar para mim mesmo: Por que eu estava drogado? Por que eu estava em tal situação? Qual era o objetivo de tudo isso? Qual era o sentido da minha vida? O que eu estava fazendo aqui neste mundo? Por que eu me encontrava atolado na lama, sem que tivesse qualquer afinidade com ela? Por que eu estava sendo atacado por seres invisíveis com tanto ódio? E quem eram esses seres invisíveis?

Concluí, então, que a vida que eu estava levando não era condizente com a vida que eu realmente deveria levar, que nada mais me prendia a este mundo, pois já havia perdido a minha família e até me encontrava desempregado, a minha ex-mulher poderia perfeitamente cuidar dos nossos filhos, além do mais eu me considerava por demais insignificante até para ser pai, sendo, pois, dispensável para exercer esse papel, e que dele eu deveria me libertar, mas da maneira mais honrada e correta que fosse possível, tendo, pois, que ser libertado por quem de direito, e jamais me evadindo por mim mesmo.

De repente, uma grande revolta tomou conta de todo o meu espírito. Não! Eu disse para mim mesmo. Aqui eu não fico nem mais um minuto, pois já não estou mais aguentando ficar mergulhado no meio de tanta lama. Imediatamente eu me levantei da cama, despi-me de toda a roupa que estava a vestir, ficando completamente despido, como que a procurar me desvencilhar de tudo o que estivesse me prendendo a este mundo, ficando apenas como o corpo carnal, ao qual eu jamais poderia tomar a iniciativa de eu mesmo dele me desvencilhar, dirigi-me ao centro do quarto, ficando exatamente no meio, ajoelhei-me, abri ambos os braços, com as mãos espalmadas para frente, olhei para o alto, e disse vigorosamente, em um brado de desespero humano:

– Deus! Meu Deus! O que eu estou fazendo aqui neste mundo? Aqui não é o meu lugar. Eu não pertenço a este mundo, pois deste mundo eu nada exijo, eu nada quero, a não ser a máxima distância. Eu quero voltar para o meu lugar de origem, onde não tem lama e onde tudo é de conformidade com a minha alma, e onde eu sou realmente feliz. Eu quero ir embora! Sim, eu quero ir embora! Agora! Neste momento! Não pretendo ficar aqui nem mais um instante! Por favor, atenda ao que estou pedindo, entenda que eu não sou obrigado a ficar aonde eu não quero estar. Eu sei que tenho esse direito sagrado. Estou esperando!

Logo em seguida, veio-me uma mensagem que eu compreendi nitidamente, não como uma espécie de voz melodiosa, suave, envolvente, encantadora, que eu iria ouvir no futuro, logo ao adentrar no apartamento com a minha mãe, vindo de uma sessão da doutrina do Racionalismo Cristão, alertando-me da seguinte maneira: “Olhe a sua missão, você vai ser presidente do Racionalismo Cristão”; quando, logo a seguir, deitei-me e pude ver as estrelas bem de perto, como se estivesse me elevado às alturas e ampliado a minha visão bem mais além do que as lentes dos mais potentes telescópios; mas como uma forte intuição, não ameaçadora, não reprovável, mas toda decisiva, prevenindo-me das consequências imediatas da minha exigência em ir embora, da seguinte maneira:

– Você tem o seu direito sagrado de ir embora. A sua decisão será plenamente acatada. Mas essa civilização será extinta, obliterada da face da Terra.

Logo a seguir, em complemento a essa forte intuição, ouvi uma forma de barulho tempestuoso, tal como se fosse uma espécie de trovão, como se as providências tomadas para o fim desta civilização começassem logo a ser executadas, de imediato. No instante exato em que começaram esses barulhos tempestuosos e trovejados advindos do alto, eu já me encontrava contemplando o âmago do meu espírito, como que a buscar algo com eles relacionado, e, em menos de um segundo, eu exclamei:

– Parem!

E imediatamente o barulho tempestuoso e trovejado cessou por completo. Eu então completei:

– Podem deixar comigo. Eu vou seguir em frente. Eu vou cumprir com a minha missão neste mundo, custe o que custar.

Vesti-me novamente. Deitei-me na cama. E algo que eu não conseguia compreender invadiu todo o meu ser. Lágrimas sentidas rolaram fartas e copiosamente pela minha face. Eu não tinha em que pensar, pois de nada sabia sobre a missão que deveria cumprir, apenas pude supor que algo extraordinário deveria realizar, fosse como fosse. E já estava disposto a tudo.

Para os mais pessimistas, os que veem todos os seus semelhantes como se fossem meros perturbados ou desequilibrados, para eles algo dessa natureza sempre é encarado como sendo fruto de uma tremenda obsessão. Mas devo prevenir a esses pessimistas que os espíritos obsessores, que antes estavam me assediando, não tinham a menor ideia acerca da minha missão neste mundo, já que não podiam observá-la em minha aura, uma vez que eu dela ainda nada sabia a respeito. E como se não bastasse, eles também não tinham a mínima ideia acerca das várias civilizações anteriores que haviam sido extintas e obliteradas da face da Terra, e que esta estava correndo o mesmo risco, então eles não podiam observar esses fatos em minha aura, pois tal como a minha missão, eu ainda nada sabia a respeito do assunto.

Pouco tempo depois, eu fui morar na cidade de Juazeiro do Norte, localizada no sul Ceará, para negociar com produtos de limpeza, quando então conheci a minha segunda esposa, com quem vivo feliz até hoje, e que foi o meu porto seguro quando realizei novas experiências com drogas, até delas me aversar completamente, após formar o ambiente propício para através dele poder contemplar diretamente os espíritos quedados no astral inferior, portanto, a baixa espiritualidade, para que assim pudesse certificar a sua existência, cujos integrantes das falanges tinham tanto ódio de mim, que um deles, dos dois que me apareceram, havia perdido a sua capacidade de pensar, aparecendo por isso em forma de uma bola preta, enquanto que o outro apareceu como uma figura rabiscada em forma de ser humano, com uma bola em forma de cabeça, um traço para o tronco, dois traços para os braços e dois traços para as pernas, todos negros quando depois, então, eu pude me livrar totalmente de todos os seus malefícios, sendo conhecedor profundo de todos os seus efeitos, pronto para avaliar por inteiro as suas influências maléficas neste mundo Terra, um dos grandes problemas da nossa humanidade que teria de ser por mim resolvido. 

            Eu tenho certo acanhamento em mostrar a produção dos meus pensamentos para os seres humanos, posto que eles sejam completamente diferentes dos pensamentos produzidos neste mundo, pois que são totalmente voltados para a espiritualidade, mais propriamente para a sabedoria, em interseção com a verdade, portanto, com base na razão, sendo todos eles, pois, ainda bastante pessoais, uma vez que os pensamentos produzidos pelos meus semelhantes ainda não conseguem ultrapassar um palmo do chão deste mundo, enquanto que os meus transcendem ao planeta. Então eu deveria guardá-los somente para mim, pelo fato deles não terem a mínima afinidade com os demais pensamentos produzidos neste mundo, a fim de evitar o excesso de escárnio, sempre acompanhado do menosprezo, pois que tudo demais é veneno, tendo que ter o seu limite.

            Porém, por força das circunstâncias, eu sou obrigado a partir do princípio de que não existem segredos nesta vida, por conseguinte, tudo aquilo que pensamos fica registrado nos fluidos, fazendo parte da nossa esteira fluídica evolutiva, que retrata toda a nossa evolução espiritual, estando ao alcance da visão de todos os espíritos, tanto dos quedados no astral inferior, como dos integrantes do Astral Superior. Assim, se os meus pensamentos ficam ao alcance da visão de todos os espíritos, que fique também ao alcance da visão dos seres humanos, para que assim eu possa universalizar os meus pensamentos, abrangendo inclusive a este mundo, além dos Mundos de Luz, onde eles podem ser realmente avaliados em toda a extensão da sua natureza.

            Além do mais, eu jamais poderia guardá-los apenas para mim, pois também tenho que partir do princípio de que a mínima possibilidade de eles serem úteis à minha humanidade, mesmo sendo a mais remota das possibilidades, enseja a que eu os registre e os transmita a todos os meus semelhantes. Neste caso, então, os escárnios e os menosprezos, assim como tudo o mais, inclusive as adjetivações, que vão às favas!

            Acima, mas muito acima de mim, em patamares muito mais elevados de importância, encontra-se a minha amada humanidade. Que ela tente me rebaixar, então, que ela tente até denegrir a minha imagem perante este mundo, que a minha luz a iluminará cada vez mais, e que assim, quanto mais eu desço em sua imaginação, tanto mais ela se eleva em minha concepção. Contudo, como aqui neste mundo tudo é ao contrário daquilo que deveria ser, na realidade, ao que tudo está a indicar, quanto mais assim materialmente eu sou rebaixado, tanto mais assim espiritualmente eu me elevo, e tanto mais eu a trago para mim, para a minha luz, nessa nossa sublime elevação, que se denomina evolução espiritual, em todo o seu esplendor resplandecente que ilumina todo o Universo.