℗ 0115

O meu pai se deixou avassalar pelos espíritos quedados no astral inferior, tendo ainda relativamente novo sido considerado como sendo um doente mental. Em virtude disso, ninguém conseguiu atentar para a importância do papel que ele desempenhou no contexto da nossa humanidade. Eu não quero aqui ressaltar o seu papel pelo simples fato dele haver sido o meu pai biológico, mas sim fazer justiça a um espírito que não encarnou em vão, como assim todos que o conhecem tendem a julgar.

Em primeiro lugar, sendo considerado por todos os médicos psiquiatras como sendo doente mental, todos eles também consideram que da mesma forma eu sou outro doente mental, diagnosticando que eu herdei geneticamente a sua doença mental, inclusive com três deles assinando um laudo médico neste sentido, para que eu fizesse provas junto a justiça comum, na ação que movi contra o Estado, para receber a sua pensão. E assim eu posso provar que não sou nenhum doente mental, pois que não existem as doenças mentais, que não passam de obsessão, como também posso provar, e aqui é o mais importante, já que para mim tanto faz ser considerado doido como não, que não existe o atavismo psíquico, apenas o biológico, uma vez que o atavismo psíquico é proveniente das encarnações pretéritas, e não dos genitores.

Em segundo lugar, como era muito estudioso, conseguiu passar em concurso público e ingressar nos quadros do Ministério Público, emitindo muitas vezes os seus pareceres sem qualquer consulta aos livros, aposentando-se com os seus vencimentos integrais, e deixando uma boa pensão para a minha mãe, que há um bom tempo é bem polpuda, com a qual ela ajudou a todos os filhos, aos parentes, aos amigos e até mesmo as ex-empregadas, a todos doando imóveis e recursos financeiros. É recebendo uma pequena parte dessa sua pensão que eu estou conseguindo sobreviver com a minha esposa e filha, e sem esta pequena pensão eu não conseguiria escrever as minhas obras.

Em terceiro lugar, ele gerou sete filhos, tendo um desencarnado com apenas alguns meses de vida, por erro de um médico incompetente, que receitou um remédio inadequado para a sua tenra idade, mas os restantes cresceram e foram devidamente educados pela mãe, tornando-se todos homens de bem, pais e mãe responsáveis, zelosos da prole que geraram.

É certo que ele poderia ter feito bem mais, caso não tivesse deixado se obsedar. Porém, eu não poderia provar assim a inexistência do atavismo psíquico, como também o papel fundamental por ele exercido para as minhas experiências científicas posteriores, pois que foi através dele que os espíritos quedados no astral inferior começaram a mim assediar, desde a infância.