℗ 0112

Este mundo é mesmo muito engraçado, engraçado até demais para o meu gosto, pois aqui tudo é o inverso do que deveria ser na realidade, como é o caso dos sacerdotes, que recebem rios de dinheiro dos seus arrebanhados para poderem falar um monte de baboseiras, semeando a ignorância por todos os recantos do mundo, na mais completa vagabundagem que se possa imaginar, enquanto que eu, para poder semear a razão no seio da minha humanidade, com base na verdade e na sabedoria, e ainda fixar os meus ideais na face da Terra, com vistas ao estabelecimento de um Estado Mundial, não tenho um tostão furado no bolso, tendo que viver com os meus recebendo uma pequena quantia retirada da pensão da minha querida mãe, gentilmente cedida pelos meus irmãos. Ainda bem que assim é, pois seria ainda bem pior se assim não fosse.

É por isso que Sócrates dizia que se realmente fosse para ser julgado, que assim o fosse, não para ser sentenciado à morte, mas para ser sentenciado a morar no Pritaneu, o lugar de reunião dos prítanes, que eram os 50 delegados das tribos ao Conselho dos Quinhentos, onde tomavam refeições às custas do Estado e a quem se concediam privilégios, em recompensa pelos serviços prestados à pátria.

Mas se fosse somente isto a minha vida seria praticamente perfeita. O pior é que eu ainda tive que pagar para que pudesse prestar os meus serviços à minha humanidade, pois que todas as experiências científicas por mim realizadas foram às minhas expensas, e não somente pagar, sendo ainda muito criticado por isso. É ou não é engraçado?

Eu estava certo dia na construtora do meu irmão Jansen, a quem desde a infância eu chamo carinhosamente de “Pombinho”, e ele a mim de “Negão”, o qual me ajuda muito na minha manutenção, quando de repente ele olhou para mim e exclamou o seguinte:

─ Poxa, Negão, a Jaquelene me falou que você gastou R$ 6.000,00 somente em livros!

O engraçado é que ele exclamou de uma tal maneira como se não estivesse me criticando, mas ao mesmo tempo estando criticando, sendo, pois, uma crítica velada, tal como se estivesse exclamando o seguinte: “─ Poxa, Negão, você não tem nem aonde cair morto, e ainda vai gastar uma quantia dessa com livros, ao invés de gastar com a sua manutenção!”.

O fato é que nada eu podia lhe falar, pois em nada ele iria acreditar, em face da imaginação, pois caso fosse lhe dizer alguma coisa a respeito, mais ainda ele iria pensar que eu era doido, totalmente perturbado, imensamente obsedado, e até se aborrecendo com o fato. Por isso, apenas baixei um pouco a cabeça e sorri para mim mesmo.

Como eu poderia lhe dizer que o dispêndio com livros não é gasto, mas sim investimento, investimento em si mesmo? Como eu poderia lhe dizer que sem os livros eu não conseguiria cumprir com a minha missão neste mundo? Como eu poderia lhe dizer que é mais importante alimentar a alma do que o corpo? Como eu poderia lhe dizer que é mil vezes preferível padecer do corpo que da alma? Como eu poderia lhe dizer que nos livros estão expostas as almas dos grandes espíritos? Como eu poderia lhe dizer que através dos livros eu também poderia mostrar a minha alma a toda a nossa humanidade? Como eu poderia lhe dizer que com os livros poderia modificar o curso da história?

O meu querido irmão é espiritualizado, detentor de uma moral que poucas vezes vi, mas pouco sabe acerca da vida fora da matéria, e o pouco que sabe não pratica, preferindo se dedicar totalmente ao trabalho. E como trabalha!

Mas se ele soubesse que certa vez eu peguei todo o 13º salário que recebi de uma empresa de transporte rodoviário de cargas, na qual trabalhava, e apliquei todo ele em livros, aí sim, ele iria ficar danado da vida, como um bom irmão que sempre foi, e que zela pelo meu bem, preocupando-se com o meu bem-estar. 

Caso eu fosse safado e vagabundo, como são os sacerdotes, além de estelionatário, fundaria uma seita para mim e iria praticar o estelionato, arrancando o dinheiro dos bolsos dos ignorantes, que o vulgo denomina de trouxas, simplesmente ensinando as baboseiras contidas na Bíblia e pregando os seus evangelhos, ficando rico em pouco tempo, como muitos fazem. Mas aí, então, eu não conseguiria mais olhar para mim mesmo, nem neste e nem no outro mundo, pois que iria ver sempre refletida em mim mesmo a imagem da patifaria.