Eu estava certa vez em uma roda de amigos, quando o assunto girou em torno das “carteiradas” que os servidores públicos adoravam dar quando fora das suas funções inerentes aos cargos que ocupavam. Então, fazendo valer o espírito moleque do cearense, um deles falou para todos nós presentes, nos seguintes termos :
Rapaz, um amigo meu ia passando em uma avenida, quando se deparou com uma barreira policial que estava revistando todo mundo e pedindo os documentos de cada um. Ele então, parou o carro e exigiu que o deixassem passar imediatamente, dizendo que era promotor. Os policiais logo o observaram com respeito e de imediato foram retirar as barreiras para que ele pudesse passar. Mas um deles, mais esperto, foi questionar o meu amigo, para se certificar se ele realmente era promotor, assim perguntando:
─ O senhor é promotor de justiça?
─ Não, senhor policial, sou promotor de vendas ─ teve que confessar o meu astuto amigo.
Como um assunto puxa aos demais correlatos, logo outro, que se encontrava na roda, morrendo de rir, apressou-se logo em contar outro causo, fazendo-o nos termos seguintes:
“Negada”, estava um bocado de amigos meus em uma festinha, bebendo e cantando, na maior alegria do mundo, quando de repente a campainha da porta tocou. Era um policial de uma viatura que estava à porta, que travou o seguinte diálogo com um deles:
─ Boa noite, cidadão, uma juíza que mora aqui perto está reclamando do barulho que vocês estão fazendo com as suas cantorias, e está mandando que vocês façam silêncio. Ela tem que ser obedecida, pois ela é autoridade.
─ Não seja por isso, senhor policial, pois se ela é apenas uma autoridade, aqui nós temos também três altas autoridades ─ respondeu de volta um dos beberrões, que já estava “prá lá de Bagdá”, como se diz em relação aos que beberam em demasia, além da conta.
─ Sim senhor ─ respondeu o policial, retirando-se com os seus companheiros na viatura.
Algum tempo depois, a campainha toca novamente. Era o mesmo policial que estava de volta, que logo falou o seguinte:
─ A senhora juíza quer saber os nomes das autoridades que se encontram presentes e os seus respectivos cargos.
─ Pois não, senhor policial, temos aqui o Jorge, que é juiz de futebol, o Augusto, que é delegado da Federação Cearense de Futebol, e o César, que é promotor de vendas de ingressos de futebol ─ respondeu na bucha o mesmo beberrão.
O policial, então, mesmo sorrindo, levou-os direto para a delegacia, mas eles não ficaram presos, tendo apenas recebido uma advertência.
As estórias são até engraçadas, mas esta última traz em si um fundo de verdade da autoridade mal exercida, em seu contexto. Ora, a juíza não estava exercendo as suas funções de magistrada, pois estava em sua residência. Além do mais, ela estava fora do seu horário de trabalho, então não tinha autoridade alguma, sendo ela uma simples empregada do povo, portanto, empregada dos brincantes. Estes sim, eram as verdadeiras autoridades, que como povo eram os empregadores da juizinha petulante e arrogante, quer dizer, os seus legítimos patrões. Mas isso, desde que não estivessem fazendo barulho acima dos decibéis permitidos por lei, pois que aí a senhora poderia exercer o seu poder de cidadã, mas não de juíza.