19- Parte XV: Comentários à resposta do Presidente do Racionalismo Cristão

No dia 03 de janeiro de 1994, enviei uma correspondência ao Sr. Humberto Machado Rodrigues, Presidente do Racionalismo Cristão, pela qual lhe fiz algumas indagações. A de número 2 diz, textualmente, o seguinte:

“O próprio Luiz de Mattos, citando o filólogo Júlio Ribeiro, afirma que todo ser humano que conhece ou que julga conhecer a verdade, e que podendo se utilizar da pena para divulgá-la aos seus semelhantes, omite-se em fazê-lo, é mau cidadão. Se, pois, sabemos que Cristo era conhecedor da verdade, e se não deixou nada escrito com relação a esta, como o senhor explica o fato? Se, como Luiz de Mattos também afirmou, palavras as leva o vento, por qual razão Cristo escolheu esse meio condenado por Luiz de Mattos para pregar a verdade? Será que ele não teria evitado tanta polêmica com relação aos seus dizeres, e será que já não estaríamos muito mais esclarecidos, se ao invés de pregado com palavras, tivesse ele, como Luiz de Mattos assim o fez, codificado suas verdades?”.

O digníssimo Presidente do Racionalismo Cristão, Sr. Humberto Machado Rodrigues, em 31 de janeiro de 1994, deu-me as suas respostas sobre as minhas indagações. E com relação a de número 2, textualmente também, ele diz o seguinte:

“É preciso compreender que Cristo viveu em uma época diferente da época do filólogo Júlio Ribeiro e de Luiz de Mattos. No tempo de Cristo não havia a prática exuberante da literatura e nem havia à disposição de todos a pena e o papel para uma documentação direcionada à posteridade. Existiam apenas os chamados ‘papiros’ com o linguajar rudimentar dos dialetos como o ‘aramaico’ que era utilizado na região onde viveu Jesus, o Cristo, embora já existisse em Roma o ‘latim clássico’ e o ‘latim vulgare’; mas, acontece que Cristo não viveu em Roma. Além do mais, desencarnou prematuramente com 33 anos de idade. Se ele tivesse um tempo de vida maior, quem sabe nos deixaria alguns ‘papiros’ enriquecidos com a sua sublime sabedoria que nos foi legada apenas pela tradição oral?!”.

Não concordo com as explicações do Sr. Humberto Machado Rodrigues. Muito antes de Cristo, obras inteiras e complexas eram escritas com os próprios recursos da época. Naquele tempo, os textos, em colunas, eram escritos sobre uma tira de papiro, ou pergaminho, de vários metros de comprimento que envolvia um rolo de madeira. Esse rolo se denominava biblos, em virtude da cidade fenícia que recebeu este nome por ocasião da entrada do papiro na Grécia. Os rolos menores se denominavam biblion, vindo daí, então, a Bíblia, que em sua origem foi ta biblia, os rolos. Dessa forma, quando uma obra envolvia certa quantidade de rolos, cada rolo recebia o nome de tomos, ou pedaço, termo que se utiliza até hoje. Fica provado, então, que havia à disposição, talvez não de todos, mas de quem se dispusesse, um meio de deixar gravada a verdade para a posteridade.

Quando Alexandre, o Grande, o macedônico, morreu, um dos seus mais notáveis e leais generais, Ptolomeu, herdou o Egito. Esse notável e leal general, que primeiramente desenvolveu a agricultura, o comércio e a indústria do Egito, para depois consolidar a vida política e econômica, e, assim, tornar-se rei desse país, pôs sob seu domínio, juntamente com o seu filho e sucessor, Ptolomeu Filadelfo, os seguintes locais: Cirene, Creta e as Cíclades, Chipre, Síria, Fenícia, Samos, Lesbos, Samotrácia, o Helesponto e, inclusive, a Palestina, onde quase 300 anos depois Cristo nasceria. Ptolomeu, aproximadamente em 290 a.C., fundou a biblioteca que iria dar fama a Alexandria. Ptolomeu II tornou Alexandria a capital científica e literária do Mediterrâneo, e a literatura alexandrina brilhou tanto, que os seus hóspedes eram os mais famosos poetas, sábios, críticos, artistas e filósofos. Para se ter uma ideia melhor das inúmeras obras existentes nessa época, Ptolomeu III determinou que cada livro existente ou que passasse por Alexandria, fosse devidamente entregue à biblioteca, e que ao mesmo tempo fosse efetuada uma cópia do mesmo e entregue ao proprietário do livro. Este mesmo rei solicitou de Atenas os manuscritos de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, e os incorporou à biblioteca de Alexandria, indenizando aos atenienses com cópias destes manuscritos e uma certa quantidade em dinheiro. Fica provado também, então, que os judeus helenísticos, que estavam divididos parte em Jerusalém, parte em determinadas cidades do Mediterrâneo oriental, e em maior número em Alexandria, bem antes do domínio de Roma e do seu “latim clássico” e “latim vulgare”, como diz o Sr. Humberto Machado Rodrigues, por certo que já se encontravam sob as luzes de uma literatura exuberante e praticada com habitualidade.

É verdade que a maior parte dos judeus do Oriente Próximo, antes do período de Cristo, falavam mais o aramaico do que o hebraico, porém, aqueles que mais se esforçaram no sentido de adquirir alguma erudição, conseguiram explicar as Escrituras em breves Targums aramaicos, ou interpretações. É sabido também que os judeus mantiveram um tradicional amor pelas letras, e escreveram em hebraico, aramaico e grego. Antes mesmo de Cristo, já existiam obras como o Eclesiastes, o Livro de Daniel, parte dos Provérbios e Salmos e a maior parte da Apócrifa. Existiam também histórias como as Crônicas, novelas como Ester e Judite e idílios de família como o Livro de Tobit. Não se justifica, pois, que um espírito da estirpe de Cristo, não tenha deixado nada escrito simplesmente porque estava restrito a uma língua rudimentar.

Se também tudo é uma questão de época, como se justificar o fato de Cristo, bem antes do seu tempo, como é lógico, haver encarnado como Platão e, contrariamente, haver deixado por escrito algumas obras?

Infelizmente, o Sr. Humberto Machado Rodrigues se contradiz, quando alega não haver Cristo deixado nada escrito, fornecendo para tanto as quatro causas seguintes: 1.º- Que ele viveu em uma época diferente; 2.º- Que nessa época não havia a prática exuberante da literatura; 3.º- Que nessa época não havia pena nem papel, só “papiros”; e 4.º- que o linguajar era rudimentar. Ora, depois dele fornecer essas quatro causas como a base da sua teoria, pela qual Cristo não nos deixou nada escrito, ele mesmo as coloca por terra, quando também afirma que se Cristo não tivesse desencarnado prematuramente, talvez nos houvesse legado alguns escritos.

Ele mesmo diz. Ele mesmo contradiz. Dessa forma, então, tudo quanto eu disse com relação às suas afirmativas foi em vão? Não. Eu as refutei com fatos baseados na História. Ele, talvez, tenha se contradito pela falta de uma lógica mais profunda em seu raciocínio.

Não me basta, porém, demolir simplesmente por demolir. Tem que ser reconstruído em novas bases tudo aquilo que for demolido, para que não se deixe escombros a serem removidos. E se a reconstrução não for alicerçada em bases totalmente seguras, devem pelo menos ficar explícitas as fragilidades dessas bases. Isso quer dizer que eu, obrigatoriamente, tenho que me esforçar por justificar tal fato, ou seja, o motivo pelo qual Cristo não nos deixou nada por escrito. Se em meu esforço eu não encontrar nada lógico, paciência. Não sei! Devo afirmar e confessar. Se por outro lado, porém, eu encontrar algo que tenha uma certa lógica, embora eu não possa afirmar com a convicção devida, devo emitir o meu parecer, visto que não me declaro lá muito amigo de opiniões.

Pois bem, como o Pe. Antônio Vieira assim o afirmou, tudo aquilo quanto nós escrevemos nos vem da alma, sendo, portanto, um reflexo desta o conteúdo do escrito. Isso quer dizer também que é o nosso pensamento — considerado como a manifestação do espírito e se utilizando do nosso poder criador — que está sendo registrado. Logicamente, bem intuído pelo Astral Superior.

Em sua obra, Cartas Doutrinárias – 1991, 2.º Volume, obra esta editada pelo Racionalismo Cristão, Antônio Cottas, a página 13, diz o seguinte:

“Jesus, se não fôra a faculdade que tinha de ver e ouvir os espíritos, teria falido antes de encetar a sua obra e não falaria com a convicção que falou a Hanã, a José Caiafa, a Pilatos, o representante de César, enfim, perante o Senedrim e Antipas”.

Isso quer dizer, na minha lógica, que a sua convicção, pelo menos em boa parte, era proveniente de tudo quanto ele havia ouvido dos espíritos e reforçada pela visão direta destes. A verdade contida em Cristo, assim, foi-lhe transmitida, e não deduzida. Honrado como era, como poderia ele escrever verdades transmitidas, ou melhor, como poderia ele assim dessa forma mostrar a sua alma, ou os seus pensamentos? A não ser que ele as transmitisse diretamente dos espíritos, e declarasse tal transmissão. Mas, nesse caso, iria ser ele um segundo Moisés, ou antecipar Maomé em suas visagens obsessoras? Em quem a humanidade, com o reduzido raciocínio que ainda possui, iria acreditar? Nele, em Moisés, ou em Maomé? E onde estaria a honra de todos os seres humanos que, por si, não souberam encontrar a verdade? Disse o próprio Cristo: “Procurai a verdade e a encontrarás”. Qual a propriedade que haveria neste dizer se ele mesmo as houvesse transmitido por escrito?

A verdade é fruto da moral. Para se obter a verdade é necessário que se capte os conhecimentos. E tudo só se pode dar através do raciocínio, com as devidas intuições.

Se a verdade tivesse que ser simplesmente copiada, de há muito ela já estaria disseminada no seio da humanidade. As pitonisas, ou médiuns, dos templos gregos tinham condições para tanto. Não sabiam que Sócrates era o homem mais sábio do mundo? Por que não saberiam as demais verdades? E os Espíritos Superiores que dão comunicação nas sessões do Racionalismo Cristão? Não teriam eles condições de nos transmitir a verdade através dos médiuns? Entretanto não o fazem. Por quê? Porque, pelo que me parece, deve a humanidade deduzir a verdade e se alçar ao Espaço Superior por seus próprios meios e esforços, fazendo-a resplandecer no universo em que temporariamente habita, embora cometendo erros e acertos, e sofrendo as consequências desses erros e as recompensas desses acertos. É a Lei da Evolução!

Isto é o que me parece. É a minha lógica.