08.01- A exegese

Nessa época em que li e anexei essa comunicação de Luiz de Mattos à minha obra relativa ao método, eu já sabia que muito tinha ainda que escrever acerca do Racionalismo Cristão, mas como era praticamente uma tabula rasa, praticamente não tinha assuntos para escrever ao seu respeito. Em razão da falta de assuntos, eu me encontrava sempre atento à procura de quaisquer assuntos que viessem a calar fundo em meu espírito, não apenas para que eu viesse a dissertar sobre eles, desenvolvendo os seus pontos doutrinários que julgasse se encontrar ocultos, mas até mesmo os incorporando diretamente àquilo que viesse a considerar como sendo importante para o esclarecimento da minha humanidade, pois para mim o fundamental é que eu anexasse o que quer que fosse ao que já principiara a escrever, para que assim não viesse a ficar estático, inerte em relação ao que pretendia realizar em prol do esclarecimento espiritual dos meus semelhantes.

Em uma das sessões públicas na casa racionalista cristã filial de Fortaleza – CE, lendo algumas comunicações doutrinárias realizadas pelos espíritos de luz integrantes da plêiade do Astral Superior, deparei-me com esta comunicação de Luiz de Mattos, que me chamou bastante atenção, o que me levou a inseri-la diretamente nesta minha obra relativa ao método.

Eu era perfeitamente ciente de que os conhecimentos metafísicos acerca da verdade não eram assim tão fáceis de serem apreendidos pelos corpos mentais dos seres humanos, principalmente porque a sua grande maioria já se encontrava deveras habituada aos doutrinamentos sobrenaturais provenientes da classe sacerdotal, que vinham sendo inoculados em suas mentes desde priscas eras, e assim, considerando-se estar correta essa grande maioria por adorar a um certo deus, não importando a sua procedência, como se todos os deuses adorados fossem apenas um só, propiciados e ressaltados sob vários prismas, conformava-se com tal situação, não admitindo, por nenhuma hipótese, a existência do verdadeiro Deus, diferente do deus que já estava habituada a reverenciar. Além do mais, a doutrina racionalista cristã não era clara o suficiente em afirmar a existência do verdadeiro Deus, pois apenas afirmava que Ele era Força, Luz, e como tal o Grande Foco, a Inteligência Universal, pelo que desta maneira podia ser confundido com o deus bíblico e outros, em face do pouco raciocínio, mesmo que enfatizando a evolução e afirmando ser falso o criacionismo bíblico.

E para reforçar a toda essa dificuldade — dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade não serem assim tão fáceis de serem apreendidos pelos corpos mentais dos seres humanos —, muitas das doutrinações racionalistas cristãs eram confundidas com o credo espírita, notadamente com o kardecismo, que também pregava a evolução espiritual, a reencarnação, a comunicação dos espíritos, e outros assuntos correlatos. E assim, com a visão dos seres humanos voltada, única e exclusivamente, para o âmbito da espiritualidade como um todo, ficava difícil para eles o discernimento do que fossem a alta e a baixa espiritualidades. E como a verdade não é dada à imaginação, ao raciocínio rasteiro, desacompanhado da boa vontade em se esclarecer, todos passavam a considerar que, se a espiritualidade realmente existia, então ela poderia ser exercida por todos os meios que dela tratassem, como se assim todos os credos e seitas, considerados como se fossem religiões, fossem os vários caminhos que levavam ao único deus, como se este deus fosse realmente o verdadeiro, quando não passa de um espírito atrasado que se encontra quedado no astral inferior.

Além do mais, Luiz de Mattos, o fundador do Racionalismo Cristão, era um ser humano completamente desconhecido pelos seres humanos, e ainda mais português, considerando o fato de que Portugal não possuía qualquer tradição em termos de descobertas significantes para a nossa humanidade, fazendo com que o preconceito viesse à tona.

Por outro lado, as ciências eram todas materialistas, realizando descobertas notáveis tendo por base a matéria, em sua ilusão, deixando encantados os seres humanos, muitos deles espantados com tantas descobertas, passando a acreditar apenas na tecnologia científica. E para completar o quadro ilusório, tudo aquilo que dizia respeito a Deus e a espiritualidade era considerado pela comunidade científica como sendo não verificável, pois que os seus integrantes não conseguiam encontrar um método que fosse capaz dessas verificações.

Sem a devida boa vontade nada se consegue neste mundo, e mesmo aqueles que são detentores da boa vontade têm que desprender um imenso esforço, têm que ter robustez de acervos para que possam vencer na vida, cumprindo com as suas obrigações e com os seus deveres espirituais neste mundo. Por isso, a luta tem que renhida.

O que mais me chamou a atenção nessa comunicação de Luiz de Mattos foi a sua afirmativa em relação à dúvida, sendo ela realmente um mal do qual muitos seres humanos padecem. Procede, pois, inteiramente, a sua afirmativa de que duvidar é grave. Somente aqueles que conseguem perceber a verdade e compreender a sabedoria podem ter as suas dúvidas dissipadas, adquirindo a verdadeira convicção, e somente o Racionalismo Cristão pode ser capaz de tornar os seres humanos convictos acerca da espiritualidade, tanto da alta como da baixa, podendo assim mensurar até que ponto pode chegar a força espiritual tendo por base a convicção.

Assim, a minha maior aspiração era justamente tornar os seres convictos acerca da espiritualidade, tanto da alta como da baixa espiritualidades, adquirindo a compreensão exata do que representava o Racionalismo Cristão no contexto de toda a nossa humanidade. Era realmente uma missão dificílima que eu estava tomando em minhas mãos, mas eu era ciente de que com muito estudo, sofrimento e raciocínio eu conseguiria levá-la a cabo. Tudo deveria vir aos poucos, em conformidade com as minhas mais altas aspirações

E como Luiz de Mattos afirma com correção, somente “Quando houver a compreensão exata do que é o Racionalismo Cristão, haverá paz íntima; e todos saberão viver, tanto na paz como na guerra”; com esta última tendendo a se extinguir de vez, em razão da compreensão exata do que seja o Racionalismo Cristão.