Todos sabem que o discurso é uma peça oratória proferida em público, ou mesmo previamente escrita, para também ser proferida em público. É certo que, para que um discurso venha a ser proferido em público, há que existir uma motivação, ou seja, uma exposição de motivos, uma causa, para que então o discursista possa realizar uma exposição metódica acerca do assunto que causou a motivação.
Dependendo da motivação, tais como nos eventos de comemorações das mais diversas naturezas, como nos casos de aniversários natalícios, de casamentos, de fundações de empresas, de inaugurações diversas, e de outros determinados eventos similares, o discursista deve ser detentor do bom senso em se ater a ser o mais breve possível, evitando assim em proferir um discurso longo e tedioso, deixando-se levar por um discursório, cuja verborragia pode fazê-lo alvo de críticas por parte daqueles que são mais pacientes, e de zombarias por aqueles que são menos pacientes.
Isto se explica em razão do palavreado se tornar sempre vão, inócuo, girando em torno do mesmo ponto de convergência repetidas vezes, sendo geralmente ostentoso, pois que normalmente é voltado para impressionar aos ouvintes, como se belas fossem as palavras que se encontram sendo proferidas, sempre carregadas de expressões amorfas, pois que esse tipo de discursista invariavelmente ignora que a beleza das palavras se encontra em sua singeleza, em sua inteligibilidade, sempre ao alcance do médio intelecto.
Assim, quanto mais o discursista se esforça por empregar expressões que se situam fora do contexto usual dos seus ouvintes, sem esquecer a norma culta da linguagem, tanto mais ele impressiona menos, pois que deixa transparecer claramente que tais expressões não se aplicam ao seu dia a dia, tendo ele delas lançado mão apenas nessas ocasiões, como a querer demonstrar que quando se faz preciso, também tem lá os seus recursos para determinadas ocasiões, quando, na realidade, não é apenas em determinadas ocasiões que se revela o verdadeiro orador, mas sim em todas as ocasiões, seja em uma simples conversação amigável, seja se dirigindo a um determinado público.
Mas quando a motivação assim vem exigir, quando o discurso requer verdadeiramente uma exposição de motivos, em razão de uma causa fundada, como, por exemplo, um discurso em função de uma determinada decisão ou de um determinado momento político, um discurso em função da tomada de decisões econômicas, um discurso em função de determinadas posições assumidas no contexto de uma nação, ou no contexto mundial, ou outros correlatos, nestes casos o discursista pode se alongar o tempo requerido para que então possa expor as razões das suas motivações, pois que se trata de motivos que requerem maiores explicações.
Há que se constatar que, nesses casos, os públicos ouvintes não se caracterizam como sendo de naturezas variadas, mas sim específicos, especializados, que possuem o máximo interesse pelos arrazoados apresentados, e que por isso se revestem da atenção necessária pelos assuntos que o discursista se lhes apresenta. Torna-se óbvio que a prolixidade deve ser evitada com o devido critério, assim como em todas as exposições de motivos e em todos e quaisquer assuntos que estejam sendo abordados.
Ao que eu me lembre, em toda a minha vida eu jamais havia feito um discurso, simplesmente porque era sempre requisitado para discursar em situações festivas, de comemorações, quando nessas ocasiões as requisições manifestadas são sempre a título de brincadeira, geralmente para os requisitantes rirem dos embaraços dos requisitados, quando então, aqueles que atendem às requisições sempre caem nas mesmices, mas sempre sob calorosos aplausos, com estes sendo acompanhados dos mais fartos risos de satisfação, tanto no início, como no final do discurso, dada a informalidade, geralmente para demonstrar que têm a palavra fácil e que não se acanham mediante essas situações. Em relação a tudo isso eu apenas sorria, divertindo-me bastante com a situação festiva e compartilhando da alegria de todos, pois para mim, meia dúzia de palavras já seriam suficientes para o discursista.
No caso deste meu primeiro discurso como racionalista cristão, eu pude perceber que os militantes da filial de Fortaleza – CE se mostravam um tanto acanhados em se apresentar ao público convidado para a festa do décimo primeiro aniversário da sua fundação, então resolvi preparar previamente um discurso simples, curto, leve, e lê-lo para os convidados, sem tomar em demasia o tempo necessário para a sua leitura, a fim de não impacientar aos ouvintes, sabendo de antemão que bem poucos se encontravam realmente prestando a devida atenção, uma vez que o assunto não poderia despertar os seus reais interesses.
E se assim foi o meu primeiro discurso, na condição de racionalista cristão, acredito que venha a ser um dos últimos, pelo menos nesses moldes, pois que hoje, para mim, o verdadeiro discursista não é aquele que prepara previamente aquilo que vai proferir para o público ouvinte, escrevendo com antecedência, e muito menos aquele que determina que alguém venha a preparar previamente aquilo que vai discursar. Isto não condiz com o verdadeiro discursista. Se não possui o dom da palavra, que não se disponha a utilizá-la em público, abstendo-se de ser um discursista.
O verdadeiro discursista é aquele que discursa em público com fluência, sendo detentor do dom da palavra, que faz brotar de si mesmo tudo aquilo que tem a dizer sobre o assunto que motivou o seu discurso, sem prévio preparo, sem pesquisa, uma vez que vem se preparando desde encarnações pretéritas para a oratória, por isso sabendo das entranhas que requerem as modulações de voz, dos tons que devem ser utilizados, do ritmo das palavras que pronuncia, e, principalmente, da eloquência, esta somente quando se faz realmente necessário. Deste rol estão excluídos todos os demagogos.
Todo aquele que discursa em inteira conformidade com as suas intenções, que tira do âmago do seu espírito as palavras que profere ao público, pode ser considerado como sendo um ser humano que inspira a mais absoluta confiança, uma vez que possui uma grande autoridade naquilo que está a proferir, pois que as suas sentenças são sempre inspiradas pelo Astral Superior, por isso as suas palavras podem ser consideradas como sendo praticamente oraculares.