Logo quando alguém desencarna, aqueles que o rodeiam e outros que se agregam passam de imediato a velar, em conjunto, o corpo carnal daquele que se foi, geralmente passando a noite em claro no recinto onde se encontra exposto o seu antigo corpo carnal, ao que todos denominam de velório. Estando a velar o corpo carnal daquele que se foi para um outro local, cujo local admite somente a presença do espírito com a sua alma, nada mais além do que isto, todos ficam como que a lamentar o seu passamento, principalmente os seus parentes mais próximos.
Os seus amigos, os amigos dos seus parentes, os amigos dos seus amigos, os seus ex-colegas, e todos os demais que vêm prestar as suas solidariedades, inclusive os curiosos, estes em quantidade diretamente proporcional à fama que ele conquistou aqui neste mundo, passam a observar o seu corpo carnal tal como se este continuasse a representar a ele que já se foi, como se ele não tivesse realmente se ido, olhando-o pesarosamente como se ali realmente morto estivesse em seu leito, dispensando-lhe uma espécie de benevolência, como se estivesse frente a frente com a morte, mas aí se colocando em um patamar mais elevado, acima do patamar em que se encontra o corpo carnal que está a contemplar, e desse seu patamar fica como que exclamando para si mesmo: “‒ Pobre infeliz, que aí se encontra deitado para sempre, morto!”; ou então: “‒ Infeliz do fulano, que se foi para sempre!”. São estas e várias outras exclamações similares por parte dos velantes.
Todos os seres humanos são completamente ignorantes acerca da espiritualidade, com a exceção dos militantes da doutrina do Racionalismo Cristão, que possuem alguma noção ao seu respeito, sendo ainda muito pouca essa noção, em extensão bastante reduzida, mas que será deveras ampliada com esta minha explanação.
Então todos os velantes, inclusive os parentes, estes principalmente, sendo tremendamente influenciados pelos credos e as suas seitas, passam a comentar que aquele que se foi está no céu, não podendo jamais estar no inferno, ou mesmo em outro local próximo e que similar, estando, pois, com Deus, ou então junto Dele, mas sempre em um bom lugar, assim como também em uma boa companhia, normalmente indo se juntar àqueles que lhe eram mais caros, exatamente como assim procedem todos os que aqui se encontram neste mundo-escola encarnados.
Tudo isto se restringe apenas ao sentido de conformidade, em decorrência de uma resignação imposta pelo ambiente terreno, forçada pelas circunstâncias que são próprias do planeta Terra, que é inerente à irreversibilidade do fato ocorrido, por isso todos passam a ser concordes uns aos outros, comungando prontamente com a mesma opinião generalizada, tornada unânime, em que essa unanimidade é apenas aparente, por ser oriunda do ambiente fluídico formado pelo velório.
Os velantes podem até pensar de maneiras diferentes, em consonância com as suas próprias imaginações, com aquilo que acreditam ocorra após a morte, ou, simplesmente, que aquele que se foi desapareceu para sempre, portanto, que não se foi, pois que ele era apenas isso que agora se encontra inerte: carne e osso; sem atentar para o fato inquestionável de que o período da sua existência ficará registrado para todo o sempre, por toda a eternidade, sendo esquecida ou não pelos vindouros, pois que isto é de somenos importância. É deveras interessante este fato em que o passamento fica ou não registrado.