℗ 0185

O período mais atribulado desta minha vida foi justamente o período da minha separação com a minha ex-mulher, tendo eu a expulsado de casa, indo ela morar com os seus pais, juntamente com os nossos dois filhos, embora eu tenha permitido que depois ela voltasse, tendo eu me retirado da casa, que por sinal, posteriormente, dei-lhe de presente. Foi nesse período de turbulência do meu primeiro casamento que comecei a fazer uso de drogas ilícitas.

Logo após expulsar a minha ex-mulher de casa, estando desempregado, sem qualquer perspectiva de vida, estava eu sozinho em minha residência, fazendo uso de drogas ilícitas, quando o meu querido irmão Kelsen ‒ a quem ainda chamo carinhosamente de Maria, em função do seu elevadíssimo interesse em ajudar aos seus semelhantes e do tratamento cordial em relação a todos com quem convive, estando há algum tempo desencarnado, tendo sido nomeado presidente astral da doutrina do Racionalismo Cristão em Campinas, São Paulo – resolveu me visitar, demonstrando uma grande preocupação para com o seu irmão.

Abri o portão para que ele entrasse em minha residência, e juntos fomos para o meu quarto, quando então eu me deitei, pois estava um tanto cansado. Ele puxou uma cadeira, colocou-a ao lado da cama, e passamos então a conversar. Logo no início da conversa, eu notei que a cada instante ele olhava para a droga ilícita que se encontrava sobre a mesa de cabeceira, mas não dei tanta atenção. No entanto, a partir do momento em que eu percebi que ele se encontrava indeciso para pegar a droga sem a minha autorização e jogá-la fora, olhei bem sério para ele e lhe disse:

‒ Maria, existem determinadas coisas na vida que se encontram fora do alcance da nossa compreensão, o uso que agora eu estou fazendo dessa droga é uma coisa que se encontra fora do alcance da sua compreensão, por isso eu vou lhe solicitar carinhosamente que não venha a meter os pés pelas mãos, por favor não tente pegar a droga que estou fazendo uso e jogá-la fora, pois eu sei que você está indeciso em relação a isso, e você tem que respeitar o meu livre arbítrio, principalmente porque eu não estou fazendo mal a quem quer que seja, a não ser a mim mesmo. Eu também sei que você está bastante aflito com a minha situação, deveras preocupado com o meu modo atual de proceder, pelo que fico até constrangido e deveras agradecido, mas não se preocupe comigo, pois eu sei dar a volta por cima no momento adequado, quando considerar oportuna a situação. Mas, antes disso, deixe que eu leve a vida que considere deva levar, pois cada um sabe de si mesmo.

Ele, então, ponderando acerca das minhas palavras, balançou levemente a cabeça em sinal de concordância. A partir daí nós conversamos sobre os mais variados assuntos, e ele quase não olhava mais para a droga, mas eu percebia que ele, mesmo respeitando o meu livre arbítrio, estava quase desesperado para jogar fora a droga. Após algum tempo, contemplando o belo que se encontrava na alma do meu amado irmão, a sua vontade quase irresistível em querer me ajudar ao seu modo, segundo o seu entendimento do que era melhor para mim, sorri de leve, sem que ele percebesse, e lhe disse:

‒ Maria, até agora você respeitou o meu livre arbítrio, eu estou bastante satisfeito e muito agradecido pela sua vontade em ajudar a este seu irmão, se você quiser, se considerar que seja o correto, você tem a minha autorização para jogar fora toda essa droga, pois do mesmo modo eu também quero lhe ajudar, para que você fique bem satisfeito.

Como que aliviado, como se estivesse tirando um peso que se encontrava incomodando todo o seu ser, de imediato ele pegou a droga, dirigiu-se ao banheiro, jogou toda ela no aparelho sanitário, e a seguir acionou a descarga. Eu acompanhei de perto toda essa sua ação, e sorri satisfeito por ter podido aliviar ao meu irmão, principalmente quando contemplei o seu semblante de satisfação, de dever cumprido. Que espírito superior!