℗ 0183

No período das minhas experiências científicas com drogas ilícitas, certa vez eu estava fazendo uso delas quando o meu querido sobrinho Alysson adentrou na minha casa, que na época era no bairro Cocó, e até hoje eu não sei por qual motivo ele foi para lá, uma vez que não era seu costume me visitar. Mesmo estando drogado, eu não me furtei em analisá-lo detalhadamente, tendo podido observar que o seu olhar para mim não era de espanto, pois ele sabia que eu fazia o uso de drogas ilícitas. Mas também não era de reprovação, pois ele sabia que eu exigia respeito, por isso não iria se atrever em interferir em minha vida. Na realidade, o seu olhar era de total constrangimento, estando ele totalmente incomodado com a situação, pois assim como todo mundo, ele também reprovava com veemência o uso de drogas ilícitas.

Adentrando no meu pequeno escritório, ele se sentou ao meu lado, então eu aproveitei a ocasião para lhe mostrar alguns dos meus escritos, mas ele não conseguiu prestar qualquer atenção àquilo que eu estava lhe mostrando, ou nada conseguiu compreender acerca das minhas explicações. Como os seus olhos estavam por demais irrequietos, sem que o seu olhar conseguisse pousar em apenas um lugar, por um só instante, eu fiquei um tanto incomodado com aquele seu constrangimento, então lhe falei:

‒ Meu filho, o que você está presenciando são experiências científicas.

Ele nada respondeu. Apenas olhou para mim demonstrando um semblante de total incredulidade. Então eu peguei o prato em que se encontrava a droga ilícita e ensaiei fazer uso dela, para comprovar que realmente era experiência científica. Chegando ao auge do seu constrangimento, ele então solicitou:

‒ Tio, por favor, não faça uso disso na minha frente.

É óbvio que atendi à sua solicitação, uma vez que já havia percebido todo o seu desconforto e constrangimento. Ele ainda não se encontrava preparado para encarar de frente certos fatos que a vida exige que encaremos, de uma maneira ou de outra. Após atender à sua solicitação, eu tentei conversar com ele sobre os fundamentos da Saperologia, mas, infelizmente, ele não reunia as condições psíquicas adequadas para que pudesse prestar o mínimo de atenção, embora ele fosse o sóbrio, e eu o drogado.

Tudo bem. É compreensível. Afinal, quem conseguiria prestar atenção ou dar crédito a alguma drogado que se dispunha a falar sobre as profundezas da Saperologia, afirmando que tudo aquilo era a mais pura ciência?