Eu tinha um grande amigo chamado Milton Muratori de Menezes, que havia sido meu colega no Colégio Cearense e depois colega da faculdade, que posteriormente o levei para trabalhar comigo em auditoria independente, na mesma empresa em que trabalhava, quando então nos tornamos grandes amigos. Algum tempo depois eu me desliguei da empresa, indo trabalhar em Manaus. Tendo retornado para Fortaleza, continuamos a nos ver aqui e acolá, sempre como grandes amigos. Mas acontece que ele tinha a mediunidade de incorporação muito desenvolvida, e sendo um médium ignorante, tornou-se imensamente obsedado, tendo sido levado pelo astral inferior para as bandas do alcoolismo. Mas isto nunca atrapalhou a nossa amizade, pois ele sempre me respeitou. Tendo eu estabelecido uma empresa de prestação de serviços, e estando ele desempregado, trouxe-o para trabalhar comigo, como gerente administrativo da minha pequena empresa, e embora ele quase nada produzisse, mesmo assim o conservei no cargo, pois sabia de antemão que isso iria acontecer, já que ele trabalhando comigo em auditoria quase nada produzia, perguntando-me em frequência demasiada como proceder nos trabalhas que estava a executar.
Este meu amigo era casado com uma mulher chamada Sara Penaforte, que também era uma médium, mas além da mediunidade de incorporação tinha também outros tipos de mediunidade, por isso ela era imensamente fanática pelo catolicismo, chegando inclusive a realizar mutirões credulários em companhia de outros fanáticos, ficando cantando músicas de louvor ao deus bíblico em plena praça do Ferreira, a praça mais central de Fortaleza, conhecida como sendo o coração da cidade, e a mais movimentada de todas as praças.
Quando o meu amigo desencarnou, eu continuei a amizade com essa sua esposa, chegando inclusive a trabalhar junto com ela na construtora de um dos meus irmãos, como corretores. Mas antes disto, quando eu me encontrava no auge das minhas experiências científicas, mergulhado totalmente na lama pestilenta deste mundo, na baixa espiritualidade, utilizando-me de drogas ilícitas, ela me dava guarida em sua residência. Ela sempre querendo fazer de mim um credulário, um autêntico arrebanhado do catolicismo, fazendo de tudo para me arrebanhar, eu, por outro lado, falava da existência da espiritualidade, sempre alertando que os espíritos inferiores me assediavam constantemente, assim como também a ela, por isso ela era tão dedicada à igreja católica.
Além de ser uma médium de incorporação, ela também era médium vidente, ouvinte e de transporte, pois certa vez, estando ambos a conversar na varanda do seu apartamento, mesmo estando drogado, eu mencionei o nome de Luiz de Mattos. Ela, então, falou que Luiz de Mattos se encontrava presente, juntamente com outros espíritos, falando determinadas coisas para mim. Quando eu indaguei acerca daquilo que ele havia falado, ela então falou o seguinte:
‒ Aaaahhh! Foram embora. Saíram voando por ali.
Eu considerei isso muito estranho, mas não dei a mínima para o fato.
Outra vez, fazendo de tudo para me arrebanhar para as bandas do catolicismo, afirmou que ela mesma era testemunha da crucificação de Jesus Cristo, que ele realmente morreu na cruz para nos salvar, pois que Nossa Senhora a havia levado até o tempo em que ele foi crucificado, para que assim ele acreditasse em tudo e não vacilasse na sua fé credulária. De imediato eu concluí que ela havia sido levada pelos espíritos quedados no astral inferior, que encenaram esse quadro, pois que eles formam as imagens fluídicas que quiserem. E não sendo assim, pode ser como afirma Fernando Faria, em sua obra A Chave da Sabedoria, a página 271, assim:
“Esses espíritos, por não sentirem a diferença da mudança para o mundo espiritual, e por não terem parado de pensar após o fenômeno natural da desencarnação, ficam com as suas mentes ainda fixas na vida material. Consequentemente, o seu corpo astral é pesado, escuro e, como tal, mais uma vez a lei natural e imutável do Universo funciona. Ficam presos ao planeta pela força da gravidade, a qual impede que atinjam o espaço sideral, rumo aos seus mundos de origem. Alguns, sendo escuros e pesados, por terem suas mentes culturalmente bem desenvolvidas, apesar de religiosos (leia-se credulários, digo eu) ou materialistas, possuem a capacidade de volitar, quais abutres sarcófagos, isto é, capacidade de transladar através do espaço, independentemente do tempo. Pensam em um lugar e imediatamente se encontram nesse lugar”.
Muitas vezes, após um bom consumo de drogas, sem que ela jamais tivesse consumido, a minha amiga ia me deixar em casa, sempre de maneira natural, sem que nunca tivesse procedido de alguma maneira estranha, fora do padrão normal como sempre procedia. Ela morava em um apartamento mais ou menos próximo a um grande shopping, denominado de Iguatemi, e eu em uma casa no Parque do Cocó.
Até que um certo dia, ao me levar para casa em seu veículo, quando trafegávamos pela Av. Sebastião de Abreu, ela passou a falar algumas palavras que eram estranhas para mim, além de muito esquisitas, fora de qualquer contexto de tudo quando sempre conversávamos. Eu, então, passei a prestar muita atenção naquilo que ela estava dizendo, procurando observar o que se encontrava por trás dessas palavras, a fim de saber quais eram as suas reais intenções com elas. A seguir, ele diminuiu a velocidade do veículo, e passou a falar constantemente mais ou menos o seguinte:
‒ Marcão, cuidado com a vida! Preste atenção que você pode desencarnar a qualquer momento. Até agora você pode desencarnar. Preste bem atenção! Qualquer pessoa, estando na sua situação, pode logo desencarnar. Não, Marcão, por favor, não vá desencarnar!
À medida que ela ia falando essas coisas, o meu coração ia passando a bater cada vez mais forte, sentindo eu um grande desconforto no meu próprio corpo. E quanto mais ela continuava com esse seu palavrório, tanto mais o meu desconforto aumentava. Eu então passei a observar atentamente o seu semblante, a fim de analisá-lo com a devida precisão, e pude assim constatar que ela mantinha sempre um sorriso enigmático, que não era próprio dela, e sempre repetindo as mesmas palavras. E o meu desconforto aumentando cada vez mais.
Até que ao chegarmos bem próximo à minha residência, logo no início da sua quadra, a sua insistência na minha desencarnação chegou ao seu auge, estando eu sabendo que aquilo não estava partindo diretamente dela, dada as suas feições alteradas. No entanto, eu sabia que ela estava servindo docilmente de instrumento para o meu assassinato, sentindo até um certo prazer naquilo, procurando colaborar em tudo e por tudo, pois os espíritos atrasados quedados no astral inferior estavam se empenhando ao máximo para que pudessem ali me desencarnar. Ora, se Luiz de Mattos apenas se concentrando para proceder igualmente ao médium que viu concentrado a escrever receitas médicas para os seus, correu o risco de ali mesmo desencarnar, conforme assim relata Antônio Cottas, o que não dizer daquele ambiente fluídico em que me encontrava, sendo assediados por inúmeros espíritos inferiores que juntaram as suas falanges para formar uma corrente poderosa com a intenção de me desencarnarem?
Então eu decidi agir de imediato, antes que fosse tarde demais. Passei a minha perna esquerda para o lado do motorista, em que ela se encontrava, e acionei bruscamente os freios. Em seguida, abri a porta, desci do veículo, e o arrodeei em direção a ela. Abri a porta em que ela se encontrava, puxei-a com vigor para fora, e enquanto lhe dava umas boas pancadas que ela realmente merecia, obviamente que sem qualquer intenção de machucá-la com alguma gravidade, disse-lhe mais ou menos o seguinte:
‒ Sua safada! Você está colaborando voluntariamente para que eu seja desencarnado. Você não tem vergonha nessa cara, não! Você pensa que eu não estou sabendo de toda essa tramoia ardilosa? Isso é para que você aprenda a não fazer mal aos outros, principalmente a quem afirma ser amiga.
No mesmo instante as suas feições passaram de enigmáticas para o desespero. A seguir eu a soltei. Ela, então, saiu correndo em direção a um prédio de apartamentos, gritando:
‒ Ai, meu Deus! Socorro! Eu estou sendo agredida.
Ela entrou no prédio e eu fui para a minha residência.
A repercussão do ocorrido foi intensa. A minha fama de doido, aliou-se à minha fama de drogado. Ninguém sabia dizer o motivo por que a Sara havia sido agredida. Uns diziam porque eu era simplesmente um doido. Outros diziam que era por causa da droga. Mas nunca ninguém veio tomar satisfações comigo, e muito menos indagar por que eu havia feito aquilo. Pelo meu lado, eu simplesmente calei, não procurei dar satisfações a quem quer que fosse. Além do mais, caso eu fosse expor o motivo, ninguém iria acreditar, pois todos ignoram a mediunidade e a existência dos espíritos quedados no astral inferior.
Pouco tempo depois, estando eu consumindo drogas com o filho de uma das minhas ex-cunhadas, de quem eu muito gosto e prezo, contei para ele todo o ocorrido, sem omitir qualquer detalhe. Ele olhou para mim, esboçou um largo sorriso, e exclamou à moda cearense:
‒ Arre égua, cara, isso foi legítima defesa!