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Neste momento em que me encontro a escrever, veio-me um pensamento um tanto quanto hilário, por força do meu estilo moleque cearense de ser. Em razão deste meu pensamento, eu passo agora a contar uma estória bastante engraçada.

Era uma vez, quando eu era o administrador de uma cadeia de lojas cuja razão social era Jacaúna Decorações Ltda., apareceu um fornecedor italiano que se dizia um industrial de móveis na Itália, que se chamava Giovanni Sonda, que eu não sei realmente se a grafia do seu nome é esta ou não, mas o importante desta estória é que, aqui e acolá, ele dava um surto de estrelismo, e então exclamava a plenos pulmões:

─ Eu sou Giovanni Sonda!   

Ao invés de admirar a esse seu surto de estrelismo, pelo fato dele ser abonado financeiramente, como muitos assim procedem, ou, por outro lado, ter algum asco ou repúdio por aquele seu deslumbramento pessoal, que era próprio do seu universo egocêntrico, como alguns assim procedem, eu considerava o máximo esse seu estrelismo, pois observava com certa atenção a todo esse seu deslumbramento, não pelo meu lado racional, mas pelo meu estilo moleque cearense de ser. Então eu considerava engraçadíssima a essa sua manifestação, de tão ridícula que ela era.

Alguns anos depois, ao me aprofundar um tanto nos meus estudos transcendentais, eu pude constatar o tremendo abismo intelectual que me separava dos meus semelhantes. Então eu me lembrei desse fornecedor italiano. Desse dia em diante, em imitação do ridículo desse seu egocentrismo, por puro diletantismo, em algumas ocasiões propícias, eu passei a exclamar para a minha mulher:

─ Eu sou Pamam, rapaz!

E não somente em relação ao egocentrismo do fornecedor italiano, mas também em relação ao espírito inferior chamado de Jeová, o deus bíblico, ridículo sim, mas muito perigoso, que na tradução latina do Velho Testamento, assim falou diretamente para Moisés: “─ Ego sum qui sum!”; que em português significa: Eu sou quem sou!

Observando a minha molecagem, os meus netinhos logo passaram também a exclamar: “Eu sou Pamam, rapaz!”. Mas acontece que a minha mulher é uma seguidora da verdade, sendo detentora de mais criptoscópio e menos intelecto, mais moral e menos ética, então ela passa a ser rigorosamente literal, não sabendo ler nas entrelinhas e nem nos tons e nas modulações de vozes. Por isso, deu duro nos meus netinhos, educadora que é, por excelência, combatendo a minha brincadeira, como se eu realmente estivesse falando sério. E conseguiu lograr em seu intento. Em decorrência, todas as vezes que eu exclamava: “Eu sou Pamam, rapaz!”; ela respondia: “─ Grande coisa!”; fazendo-me rir gostosamente. A partir daí, sempre quando eu dizia: “Eu sou Pamam, rapaz!”; os meus netinhos, tal como ela, passaram também a repetir em coro: “─ Grande coisa!”. No entanto, o meu filho mais novo, a quem chamo carinhosamente de Ieiê, adotou o espírito desta minha brincadeira, e sempre nas ocasiões propícias, passava a exclamar: “─ Eu sou Ieiê, rapaz!”. Em seguida, punha-se a rir.

E agora vem aqui o mais engraçado da estória.

A minha esposa não tem a mínima noção do que seja realmente uma coisa, pois todos nós, seres humanos, somos uma coisa, já que somos provenientes da Coisa Total. Então, sempre quando ela se dirige a mim e exclama: “─ Grande coisa!”; ela pensa que está me diminuindo, mas, na realidade, está me enaltecendo, dizendo realmente o que eu sou, pois que nem o tom e nem as modulações da sua voz em forma de ironia poderão retirar a literalidade da sua expressão, pois que a recíproca tem que ser verdadeira. É ou não é engraçado?

O meu filho mais velho também é detentor de mais criptoscópio e menos intelecto, ao contrário do meu filho mais novo, que é detentor de mais intelecto e menos criptoscópio, mas que ninguém vá pensar que existe alguma preferência da minha parte, pelo fato de eu ser um intelectual, pois caso existisse eu não poderia ter tanta admiração por Luiz de Mattos, detentor do mais evoluído criptoscópio de toda a nossa humanidade.

Pois bem, brincando com o meu filho mais velho, deixando transparecer para ele algum egocentrismo da minha parte, mas sem exagerar, para que assim ele não pudesse compreender a minha brincadeira, afirmei para ele que no futuro, quando qualquer ser humano estivesse a desempenhar uma tarefa considerada como sendo por demais complexa, e outro duvidasse da sua devida consecução, manifestando a sua dúvida para ele, que era convicto da sua consecução, o seu desabafo seria o seguinte:

─ EU SOU PAMAM, RAPAZ!

Ele, então, olhou para mim de uma maneira peculiar, exatamente como previ, e nada falou, considerando que o seu pai era realmente um egocêntrico. A brincadeira era minha, e não dele, então ele ficou lá com os seus pensamentos, enquanto que eu fiquei cá com os meus. E pensando aquilo que realmente queria pensar, fiquei rindo sozinho por um bom tempo.